quinta-feira, maio 11

Da série: na minha tropical ausência não darás pela minha falta

Se parto, é apenas na esperança que um dia me digas para ficar.

Deixo sempre tudo arrumado, como se voltasse na manhã seguinte, à excepção do gato e do frigorífico.
Deixo o livro de receitas na prateleira da cozinha, não vá faltar-te a sopa.
Deixo toda a roupa lavada e recados para não te perderes na minha ausência.
E mais, para que não me sintas a falta, vou dando notícias.
Deixo as chaves de casa com o Manel para que a varanda se mantenha florida, caso passes na rua lá em baixo.
As luzes são solares, pelo que a cozinha, pelo final do dia, terá sempre um cheiro a mim, como se ali estivesse a ler à janela, sentada no tanque da roupa.

Se parto, tão amiúde,  é para que um dia me perguntes quando volto.

Deixo a cama feita de lavado e com os lençóis de renda impecávelmente esticados.
As saudades, faço de conta que são coisa que não me apoquenta e encaixo-to-as na garagem, junto aos outros tempos e às bicicletas.
O carro deixo-o a porta de casa, à mercê das acácias floridas longe do mar, praga que lhe come a pintura. O carro, para que saibas (e não estou a reclamar), sente a minha falta e quando volto só ressuscita à força dos cabos, não é como tu.

Parto sem dizer que fui e que se me ausento é por ti.
Parto pelo calor do voltar.
Volto pelo gato, cansada de esperar o teu convite.

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