domingo, outubro 5

Já podia ir para casa. Ainda não é sequer meia-noite e podia ir dormir na minha cama. Mas olha,  hoje trouxe-te até aqui e foi aqui que passei o dia contigo e agora não me apetece ter de lavar a loiça de há 3 dias e aperceber-me que só há pratos e copos e chávenas de café impares da solidão das horas das refeições e aqui nunca estou sozinha.
Se possibilidade houvesse de que estivesses sentado na soleira da minha porta, não tinha hesitado um segundo. Na sua ausência, agora que já aprendi a aceitar que a vida nem sempre nos corre como gostaríamos,  opto por este quarto mais pequeno, quase austero - uma cama com colchão ortopédico duro quase demais para a princesa da ervilha (moi même), com roupa espalhada pelo chão e a máquina de limpeza a vapor a um canto.
Fico bem porque hoje te trouxe até mim e lá fomos felizes nesta minha maneira de nos inventar na minha cabeça. Vou abrir o livro e vou ler-te um ou dois parágrafos num esforço extra para não fazer o Gonçalo M. Tavares corar de lost in translation. Escolherei as mais finas palavras da tua língua para seguir os passos do senhor Valéry como se em Stratford-upon-Avon ele morasse. Depois,  espero que aproveites a calada da noite para te ires embora de mansinho que não me posso dar ao luxo de viver embeiçada todos os dias por alguém que não existe e amanhã é domingo no mundo e toda a gente sabe que os domingos são sempre dias difíceis para os solitários como eu.

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