segunda-feira, setembro 22

o corpo é uma coisa, a pessoa é outra. são vontades de ser diferentes. às vezes quase opostas. o meu corpo quer muitas coisas que eu não quero, mas às vezes é preciso fazer-lhe a vontade. o meu corpo quer cigarros na varanda à noite, mesmo que chova e eu não quero porque faz mal e porque está a chover e o meu corpo não quer saber se está a chover porque quer e é como uma criança, o meu corpo. quando quer quase faz birra. o meu corpo quer mãos em cima dele, nas suas pernas, beijos nas costas, sexo puro e duro, cama desarrumada, roupa a voar, é o que ele quer. eu queria outras coisas, queria um amor fofinho, alguém com quem ver filmes em dias de chuva, alguém cujo ombro tenha o relevo exacto das minhas orelhas e o meu corpo não quer saber de nada disso. já mo disse. quero carne! e eu que quero ser vegetariana e ele a gritar por carne - dá-me carne Helena! um pedaço de carne para morder e abraçar e puxar cabelos, carne que se esquece entre as refeições, tenho fome Helena!
é uma bestazinha, o meu corpo. quem olha não adivinha. pequeno, sempre moderadamente escondido atrás da minha pessoa, discreto dentro de umas jeans e uma t-shirt, raramente se exubera com baton vermelho. arzinho de quem anda sempre distraído e de quem não se importa de passar fome. mas isso é por fora. entre mim e o meu corpo há lingerie preta com rendas, lá lhe faço a vontade. e quando estamos sozinhos em casa, lá o deixo passear-se com ar esfomeado, cabelo solto, pernas nuas estendidas no sofá, unhas dos pés vermelhas à mostra. e se é dia descanso lá o deixo andar de cuecas pela casa, ponho-lhe um vinil a tocar e deixo-o dançar descalço na sala - solta-te para aí. se é dia de descanço lá o deixo trazer um rapaz para casa - eu que estou farta de rapazes, dEUS nosso senhor, dá-me um homenzinho! - deixo a bestazinha à solta, deixo-o não dormir e desfazer a cama toda, diverte-te corpo tonto, vem-te seis vezes seguidas, não há de ser nada. amanhã terei tempo para arrumar tudo, apanhar os pedaços, lavar a roupa, pôr uma música menos eléctrica, tomar um banho bom, limpar-te e rir-me de ti e das tuas loucuras, mandar uma mensagem a dizer no worries, no hurry, chicken curry! amigos como antes. afogar o quero mais, quero mais, dá-me mais em chá de Lúcia-Lima, faço uma chaleira das grandes e comer fruta e cereais até o corpo se ver o estômago cheio e se acalmar um bocadinho, se calar um pouco, e me deixar ler um livro ao som de música clássica, sentada direitinha no sofá, o meu corpo que não gosta de ler, que queria ouvir o Artic Monkeys e rebolar no chão quieto, fica, menos, já brincaste ontem, dorme um bocadinho agora enquanto eu me sento aqui a ser pessoa, se faz favor.

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