domingo, setembro 14

Ele diz que eu sou fofinha. Eu odeio. Ele que é um rock & roller, skinny jeans e t-shirt rota. Ele que acerta sem pestanejar debaixo dos óculos nas minhas ilustrações favoritas - "são as fofinhas". E eu reclamo.  Não sou fofinha coisa nenhuma, nunca fui. Maria-rapaz, mau feito, mania de sabe-tudo (as rugas-vincos entre as sobrancelhas são testemunha), incansável, mulher de armas, isso sim, agora fofinha... nunca vesti cor-de-rosa, nunca tive sapatos de verniz nem laços nos cabelos. De fofinha tenho as tatuagens com flores no ombro (poderão, nos dias que correm, pessoas com tatuagens ser fofinhas?) que servem apenas para me lembrar que apesar de tudo, APESAR DE TUDO (ai que este tudo continua a crescer, todos os dias, todos os meses, todo o 2014) ainda há coisas bonitas no mundo - lembra-te Helena, das flores, das árvores, dos pássaros, dos poemas do Eugénio de Andrade, lembra-te Helena do cão e dos teus sobrinhos, do abraço do gato quando chegas a casa. Eu que trago sempre o corpo pisado, nódoas negras por toda a parte (até por dentro), que tropeço até nos meus próprios dedos dos pés, incapaz de usar um tacão, nem cunha (de qualquer tipo), que me escondo atrás dos óculos ou de uma discussão política para fugir aos olhares ou aos elogios. Fofinha... e ele que tem uma paixoneta por mim que eu finjo não ver ri-se e diz fofinha sim, com um mundo só meu, cheio de fadas e flores pequeninas e sombras dançantes e músicas com sininhos.

E ele que diz que quando pensa em mim pensa nas músicas fofinhas que já escreveu e eu torço o nariz.

Depois ponho uma das fofinhas dele a tocar e penso que não é assim tão mau.

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