terça-feira, julho 22

Estou em pausa entre livros. como que suspensa. à espera que passe. à espera que o "Kafka à beira-mar" passe, à espera que cada personagem passe por mim, devagar, limpe a casa toda, pegue em todos os trapos, arrume a cozinha que usou nas últimas duas semana para preparar o chá, eu sentada numa cadeira no canto da sala, com as mãos no colo, a vê-los a fazer as malas.

Há livros que vêm de mochila, quando acabam já têm tudo preparado para a saída e não tenho tempo nem para me sentar. E não estamos a falar de maus livros que eu esses abandono num canto qualquer e não penso mais neles. Mas livros que trazem pouca bagagem, livros-mochileiros ou one-night-stand, chegam, entram na cama e no dia seguinte saem antes de eu acordar. Talvez de manhã ainda me lembre das suas caras, das mãos mas no final do dia já é só a memória de um ou outro detalhe e seguir em frente.

Mas o Murakami não é desses. É dos que traz a sua própria chávena, que estende o tatami no chão do quarto, ao lado da cama, que enrola os dedos nos meus cabelos enquanto eu leio, que me sopra no pescoço. É dos que faz de conta que veio para ficar, dos que desfaz a mala e ocupa uma gaveta vazia e ajuda a arrumar a máquina de lavar loiça, como se a casa fosse sua. É dos que fala comigo como se o meu corpo fosse a sua casa, ali, à vontade, sem vergonha de me apertar o rabo, sem ansiedade nenhuma. Esses são os piores. São os melhores e só são os piores porque quando vão deixam tudo arrumadinho, dão um abraço, um beijo e vão à sua vida e quando chego a casa nem sei bem se alguma vez lá estiveram ou se foi só imaginação minha. Um vazio.



Estão todos, agora mesmo, a fazer a mala dentro de mim, a levar os livros todos, as músicas todas, a dobrar o jardim da biblioteca, a carregar a aldeia no meio da floresta, em silêncio, descalços. Já estão a varrer o chão. Quase imploro que não o façam - não precisam de levar tudo, não precisam de arrumar tudo, deixem-se ficar mais um bocadinho, faço-vos outro chá? Conta-me Kafka que vais fazer a seguir? Prometes escrever? Sakura, manda-me fotos! Oshima, que livro devo ler a seguir? E eles já em silêncio que já disseram tudo o que tinham para dizer e eu sei, mas queria que eles me adicionassem no facebook, que prometessem voltar um dia para um copo de vinho verde na Sé, todos juntos e talvez um passinho de dança.
 
Estou sentada no canto da sala, mãos no colo, a tentar descobrir um fio de cabelo, um chinelo perdido, um quadro roubado, alguma coisa que não esteja na mesma. O gato a olhar para mim - não vi nada, o que procuras? não se passou nada! E eu à espera que alguma coisa tenha mudado e gato a dar cambalhotas - olha para mim, tão lindo! - e eu a falar com o gato, talvez o Nakata tenha deixado o dom? e nada. Tudo na mesma. Se eu contar que ainda há 3 dias tinha a casa cheia de gente ninguém se acredita. Dentro de mim todos eles, já estão parados, uma vénia e eu em ovação, mais uma vénia e eu a gritar - só mais uma! só mais uma! e eles vão fazendo vénias e eu sei que daqui a nada se cansam e têm de ir embora e fico eu na sala, sozinha, a saborear as últimas palavras que ficaram suspensas no candeeiro, ou nas plantas da varanda.

Mais um dia ou dois, lá vou eu de volta à vidinha, à Islândia fria do Valter Hugo Mãe e é pena que me vai saber a pouco e até nem é mau livro "A Desumanização" mas depois disto vai ser romance de beira de estrada.


E porque o mundo fala comigo continuamente, acabei de me cruzar com isto:

"Ever finished a book? I mean, truly finished one? Cover to cover. Closed the spine with that slow awakening that comes with reentering consciousness?
You take a breath, deep from the bottom of your lungs and sit there. Book in both hands, your head staring down at the cover, back page or wall in front of you.
You’re grateful, thoughtful, pensive. You feel like a piece of you was just gained and lost. You’ve just experienced something deep, something intimate. (Maybe, erotic?) You just had an intense and somewhat transient metamorphosis.
Like falling in love with a stranger you will never see again, you ache with the yearning and sadness of an ended affair, but at the same time, feel satisfied. Full from the experience, the connection, the richness that comes after digesting another soul. You feel fed, if only for a little while." aqui

I rest my case!

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