domingo, julho 27




O meu sangue é salgado e tem cheiro a maresia, sargaço e óleo dos petroleiros que passavam em Leixões. E é espesso como as folhas dos metrosíderos da Foz do Douro. Eu sou espessa como os metrosíderos, que vieram da Nova Zelândia, do outro lado do mundo, onde lhes chamam "pohutukawa" que, em maori, significa "salpicada pelo mar". Também eu fui salpicada pelo mar. A minha mãe tem medo do mar, este sal deve vir da parte do pai, ou dos passeios ao Sábado na Avenida de Montevideo, mas sempre senti as ondas de pulso com espuma suja, os meus cabelos ao vento sempre tiveram algas ou peixes e entre os dedos dos pés é frequente encontrar areia grossa.


Quando tomo banho, às vezes, reparo que trago uma ou duas traineiras no umbigo. Às vezes estão atracadas porque o tempo está mau e sinto o olhar vidrado dos pescadores das Caxinas no mar, em mim, à espera que a tempestade passe. Às vezes, quando os dias são bons, sinto-as a largar amarras e aventurarem-se veias acima, começam pela umbilical, logo ali ao lado e banham-se nos humores do peritoneu. Parecem borboletas.


As tábuas com pregos ferrugentos, restos de redes, as garrafas de óleo e de água e os pauzinhos dos gelados, um ou outro cadáver vêm sempre, mais cedo ou mais tarde, dar às minhas costas e eu não tenho bandeira azul, não tenho banheiro nem sou sequer praia, só mar, não tenho quem me limpe em dias de marés vivas e nem sei onde meti as minhas bóias salva-vidas.


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