Talvez
porque o mundo seja pequeno. Talvez porque o mundo não seja bonito para quem
cresceu dentro de livro e músicas e montanhas e praias paradisíacas, com a
família perfeita. Talvez a minha mãe não devesse ter-me ensinado a gostar de
poesia e da Sophia de Melo Breyner tão cedo ao ponto de construir o meu mundo a
partir de fadas e florestas e ruínas de uma Grécia de mitos. Ou talvez seja
apenas por ter entrado para a natação aos 3 anos e me terem ensinado que se é
para mergulhar, que seja de cabeça, mas agora não sei outra forma. Viver é mergulhar de cabeça – mede-se a
profundidade, põe-se o pé para avaliar a temperatura et voilá – de cabeça.
Porque se não for de cabeça como há-de-ser? Entrar devagarinho, pé ante pé, a
água gelada dos dias a enregelar-nos os ossos – como há coragem de continuar?
Dizem-me
frequentemente que sou uma mulher de coragem, que quando vou a jogo é cheia de
força, até aos ossos. É verdade, mas isso não é coragem. Coragem é ter calma,
entrar devagarinho nas águas, adaptar, ganhar, com o tempo, membranas
interdigitais e barbatanas dorsais e guelras – a natureza quis que a evolução
fosse um processo adaptativo lento e eu sou aquilo que os cientistas chamam de
salto evolutivo - uma mutação, portanto.
De
cabeça, sempre de cabeça e sempre sofregamente em tudo. Se é para ler um livro
é para se morar dentro daquelas páginas, é ser-se todos os personagens ao mesmo
tempo, é sonhar e ter-se angústias de figurino, é jantar-se apenas se houver
uma refeição no livro e alguém estiver com fome. Lembro-me agora de uma viagem
de comboio, era apenas de 1 hora, em que na leitura um persongem já não
aguentava sem urinar e de um momento para o outro, do nada, a minha bexiga
cresceu para um tamanho descomunal e como os urbanos não têm quarto de banho, lá
tive eu de sair a meio da viagem, correr para o café de serviço e esperar 1
hora pelo transporte seguinte.
Sempre
fui assim e cheira-me a que isto não tem cura. Ouvi dizer que se chama sofreguidão
e que é o oposto da calma. Como já disse, memória é coisa que não me falta mas
esta história de aprender com os erros não funciona muito bem comigo. Quer
dizer, não os repito iguaizinhos, vou fazendo pequenas variações, mas nunca no
mergulho. Começa sempre tudo com um mergulho.
Vai
agora uma nota para a menina Joana, little me. O meu pai tinha um kayake de
dois lugares e volta e meia lá ía eu em passeio, rio acima, rio abaixo, nas
calmas. Um dia, o meu tio e o meu primo, os dois homens bastante atléticos,
vieram passear connosco. Palavra puxar palavra, alguém se lembou de lançar a
competição (e se há coisa que eu não resisto é a uma competição – nunca entrarei
num casino, que esta ansia de ganhar é uma coisa doentia) e foi quanto bastou
para que nessa noite não pudesse escovar os dentes, tal a dor nos braços. É claro
que ganhamos, que pergunta mais tonta!, mas eu tinha 15 anos e foi a minha mãe
que me cortou a carne em pedacinhos para eu poder jantar.
É assim
com quase tudo. Não me ponham um copo de vinho à frente, ou uma fatia de bolo
de chocolate. Ou um amor – e aqui é o pior. Não me dêem coisas pequeninas,
petiscos. Não sou de depenicar, quero as coisas todas, ao mesmo tempo, quero
não dormir, quero não sair dali nunca, devorar o mundo todo porque nunca se sabe
quando vamos ter de parar, quando o outro vai ter de ir embora e até lá (ai que
pode ser já daqui a nada) há tanto para dizer, tantos beijos para partilhar,
tantos centimetro de pele para sentir – o coração a mil, sempre a mil, tudo,
tudo, tudo, até os silêncios têm de ser saboreados e às vezes nem há tempo para
eles. De cabeça! Às vezes com a cabeça quase a bater nas pedras do fundo, a
razar, de olhos bem abertos, a maravilha de se estar tão perto do abismo, tão
perto da loucura.
Já o
disse, a maior parte dos nossos dias é aborrecimento e rotina e desilusão, por
isso mergulho em todos os momentos bons, pinto-os com lápis de cor, dou-lhes
asas e delongo-me neles o mais possível, às vezes até os romper, buidos,
t-shirt velha onde os braços já entram em mais de 5 buracos, gasta mas tão
confortável, a cheirar a mim, células minhas espalhadas em todas as fibras. Sou
uma potencial alcoólica, obesa, toxicodependente, com problema de jogo e uma
sede de amor a razar-me os olhos. É isto que eu sou e se é só em potência é
porque dEUS nosso senhor calhou de me dar um cérebrozinho que me vai travando e
dizendo – olha o fundo, rapariga, olha as pedras, não batas com a cabeça,
passa-lhe só as mãos devagarinho, em apneia profunda.
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