quarta-feira, julho 30

o massacre dá na tv e não é retrospectiva

o que fazer com esta impotência de ver um genocídio na televisão?

sem entrar nos pormenores da origem da culpa, que na verdade está bem definida já que ninguém pode dar o que não é seu e a resolução de oferecer um pedaço de terra que não lhes pertencia em 1948 não deixa qualquer dúvida, mas esquecendo isso, fazendo de conta que este problema começou há 15 dias, como podemos ficar indiferentes a um massacre de um povo de crianças (a idade média dos palestinos é de 16 anos) por parte de uma super-potência militar? E se não ficamos indiferentes, o que podemos fazer? Porque partilhar imagens dos mais de mil estropiados, porque condenar nas redes sociais e discutir o assunto nos cafés me parece coisa pouca.

sempre condenei o alemães por não terem feito nada contra o movimento nazi. não quero, nem nunca quis, aceitar que todos os alemães aceitaram de bom grado o extermínio dos judeus e ciganos e romenos e deficientes. sempre acreditei que havia muitos que eram absolutamente contra, mas também sempre me chocou como podiam ir tomar café, e fazer férias e convidar amigos para jantar enquanto milhares eram reduzidos a cinzas ao seu lado. neste mundo global em que vivemos a Palestina é já aqui ao lado e eu continuo a tomar café e a trabalhar e a planear as minhas férias para Outubro e isso não me parece bem.

a democracia global pela qual supostamente tantos povos lutaram, tantas resoluções internacionais, tantas cartas de direitos Humanos e direitos da Criança, tantas acções conjuntas, tantas reuniões das Nações Unidas e na verdade esta democracia não serve para nada. As Nações Unidas pedem "contenção", tenham aí algum cuidado, não sejam tão mauzinhos, ó Israel. Nenhum embargo, nenhuma sanção, nenhuma força militar de paz, só palmadinhas nas costas - ó Israel, está toda a gente a ver, vê se não acertas em tantas criancinhas, vê se consegues contrariar as fotos de pequenos corpos espalhados no chão, dá-nos alguma coisa que ajude... conta-me a história do soldado isrealita que torceu o tornozelo numa ofensiva, conta-me como os vossos avôs foram mortos em câmaras de gás, fala de como os vossos tetra-avós foram expulsos para o deserto, e contenham-se - acertem com os mísseis apenas nos miúdos que tenham pedras nas mãos, evitem as grávidas, por favor.



e a mim custa-me trabalhar, custa-me ir ao supermercado, custa-me aceitar que não há nada que eu possa fazer para além de partilhar as fotos, custa-me continuar com a minha vida normal enquanto o povo-menino de pedras nas mãos a defender a sua casa é eliminado da face da Terra.

When they kick out your front door
How you gonna come?
With your hands on your head
Or on the trigger of your gun




E os meninos nem armas com gatilho têm e nem mesmo o Hamas tem armamento de jeito para se defender do país mais armado do mundo e mesmo assim eles arrombam a porta e os Palestinos é que são os terroristas porque não abrem a porta de joelhos no chão e mãos na cabeça.

a mim custa-me aceitar que a democracia, o poder do povo, nos continue a deixar de braços atados à frente da televisão ou do computador e que os nossos lideres, aqueles a quem nós pagamos todos os dias para nos representar, se alheiem desta situação como se entre marido e mulher não se metesse a colher, como se os crimes de guerra não fossem crimes públicos, como se os direitos Humanos só se aplicassem post-mortem.

se alguém souber como se lidar com esta angústia (e não me digam bebe um copo e vê a novela das 6), por favor, conte-me!

Sem comentários: