enquanto a imagem de felicidade para a grande maioria de pessoas for as férias paradisíacas, o carro, o bife do lombo, a sociedade não vai mudar. nós, homens, somos apenas capazes de lutar por aquilo que nos faz feliz no final do dia. e se a pobreza não nos tira o sono, se os despedimentos em massa não nos roubam a felicidade do dia-a-dia, não seremos nunca capazes de realmente nos unirmos para mudar a situação. Apenas aquilo que nos mexe com o umbigo é merecedor do nosso esforço.
Eu, que vivo uma vida calma, que luto todos os dias pela ética e por um mundo melhor, faço-o por egoísmo. É por egoísmo que trato bem as outras pessoas, é por egoísmo que trabalho com afinco, é por egoísmo que pago os meus impostos, é por egoísmo que ligo à minha família, é por egoísmo que dou presentes aos meus amigos e que lhes digo que os amo. É por egoísmo porque o objectivo final é sentir-me bem comigo própria. porque essas pequenas coisas são as que me fazem feliz. o dar faz-me feliz, nem é o ver a felicidade dos outros a receber, é o chegar ao final do dia e, na cama, sóbria, olhar para o meu dia e pensar - estive bem! estive à altura de mim própria. falhei pouco naquilo que são os meus princípios. Isso põe-me um sorriso nos lábios e faz-me dormir como um anjo. Mesmo com as guerras lá fora, com os sem-abrigo, as mulheres violadas. Durmo bem porque fiz o que podia. E não se enganem, não sou nenhum anjo. Bem sei que compro roupa barata de que não preciso e que é produzida às custas de salários ofensivos no outro lado do mundo. E acreditem que gostava de não ter de falar com a minha própria consciência nesses dias, ainda assim não a ignoro e não bebo para esquecer-me. Mas também não me fustigo por coisas menores. Ou mesmo maiores. Não espero de mim própria um ser alado, livre de defeitos. Aceito-os e vejo apenas se consigo, sem sofrimento atroz, melhorar um bocadinho para o dia seguinte.
Talvez tenha aprendido isto com a medicina. Lembro-me de perguntar à minha mãe, eu devia ter 15 anos, se ela não sofria quando os doentes lhe morriam. E ela disse que com alguns sofria, porque gostava deles pessoalmente, porque eram boas pessoas e porque gostava de passar tempo com eles, mesmo que fosse aquela conversa curta durante a consulta, mas a vida era mesmo assim, as pessoas tinham doenças e morriam porque o corpo não é eterno. Depois havia aqueles cuja morte a fazia sofrer imenso - esses eram os casos clínicos que ela não tinha resolvido, aqueles que tinham morrido antes dela perceber o que se passava com eles, antes de ter chegado a um diagnóstico, antes de ter tentado todas as terapêuticas possíveis, Com esses sofria muito, por egoísmo, porque no final do dia não podia dormir e pensar fiz tudo o possível. Com esses ela às vezes até chorava e passava as semanas seguintes a estudar afincadamente, para descobrir o que tinha falhado, porque não chegou ao diagnóstico mais rápido, porque não funcionou aquele antibiótico quando era o mais indicado, como seria possível que houvesse uma patologia escondida por trás do óbvio, porque não fez aquele exame raro. E não estou a falar de erro médico. Estou a falar da não resolução do enigma a tempo, não por preguiça ou distração ou por outro motivo qualquer, mas simplesmente porque o tempo não a deixou chegar lá. Também passei por isso enquanto veterinária mas infelizmente, na maioria das vezes não era por falta de tempo, mas por falta de dinheiro. A medicina paga é uma crueldade. Quando os donos diziam para não fazer o hemograma que me ía dar o diagnóstico ou para fazer apenas uma das 3 serologias que deveria fazer porque não tinham dinheiro para mais e eu tinha de adivinhar o diagnóstico, jogar com as probabilidades numa coisa que não é um jogo, que é uma ciência com o método... aí doía e não dormia descansada. Nos outros, nos cães fofinhos, novos e velhos, nos gatinhos estropiados, desde que tivesse a consciência tranquila, desde que tivesse feito a minha parte, não me tiravam o sono.
Eu não acredito em altruísmo. Não acredito em pessoas que fazem o bem pelos outros contra si próprio, Isso não é humano. Os animais são egoístas, é essa a nossa natureza. Somos pela nossa sobrevivência acima de qualquer outra coisa, pelo que não faz sentido fazermos coisas que não nos beneficiam. Mas acredito que, para alguns de nós, o fazer bem a nós próprios é estarmos de bem com o mundo que nos rodeia mais do que com o nosso umbigo. Para alguns de nós o nosso umbigo não chega. A barriga cheia vale pouco se os nossos olhos tiverem de lidar todos os dias com a pobreza ou com a fome do vizinho. E não é por culpa, não por pensarmos que o nosso bife podia ter sido partilhado com eles, é porque no final do dia pensamos - podia ter feito melhor, no meu dia, para não ter de viver com aquela visão, e se calhar podia.
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