quinta-feira, julho 3

Sophia de Melo Breyner



Esta doçura. Este sentar à janela a fumar um cigarro e a escrever uma carta. (será para Jorge de Senna? será um poema?) Para mim, olhar esta fotografia é ser a Sophia. Eu gostava de ser como ela. Já a fui muitas vezes, sentada na janela, a fumar, calmamente a escrever cartas. Aquela doçura e calma de quem sabia quem era, de quem sabia quem queria ser, de quem não tinha medo mesmo quando tinha muitos motivos para ter medo.

Ai minha musa com fadas e árvores e ondas e grécias do meu nome e com a luta no peito.

Lembro-me da voz da minha mãe a ler-me a Floresta sentada ao lado da minha cama, lembro-me dos poemas quando os descobri, lembro-me mais tarde da figura, serena, sem trejeitos de estrela maior. Lembro-me de receber a notícia da sua morte, estava eu emigrada num país que não tem a sua doçura e lembro-me de pensar que não poderia ficar ali, lembro-me de pensar que a Sophia era a minha pátria. Logo a seguir morreu o Carlos Paredes e foi a mesma coisa, como se pode viver fora de um país que é maior do que as suas fronteiras, na escrita, no som, nas ondas da Grécia. 

Um mulher linda e serenamente corajosa num mundo em que ser mulher era o piso de baixo da condição humana e ela nem humana era, existia e respirava e era forte da única forma que eu sei ser, com calma.

Lembro-me da viagem de carro, à vinda do Gerês, eu apaixonada, rota depois da primeira caminhada depois da fractura do joelho, e a antena 2 com uma leitura da Floresta. Lembro de não querer que aquela viagem de regresso a casa terminasse nunca. Lembro-me do silêncio que reinava no carro e eu tão feliz. Lembro-me de olhar pela janela e ver todas as criaturas da Sophia lá fora a passear entre as árvores da beira do caminho. 

Foi com a Sophia que eu aprendi que ser-se forte é ser-se calma e tenho para mim que se ela andasse dentro das carteiras da pessoas em livros de bolso, se ela vivesse nas mesinhas de cabeceira das crianças, se ela fosse recitada nos jardins, se as fadas fossem ensinadas nas escolas e ensaiadas nos teatros do país, Portugal era um sítio mais bonito. 






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