quinta-feira, julho 3

Carta-resposta para uma lírica



Achei piada à tua frase de que a normalidade não te traz inspiração e por isso te respondo. esta coisa da normalidade tem sido, para mim, temática da maior importância. por causa desta imagem que nos foi vendida de que a vida normal é a evitar, por ser cinzenta e aborrecida, por a vida normal ser uma carneirada, um palerma deixou-me à porta da obstectra onde íamos planear o nosso primeiro filho, numa relação maravilhosamente bonita e cheia de amor, passeios, concertos, férias, casa cheia de jantar com amigos, filmes de culto, projectos. não quero uma vida normal, disse ele. 

eu não sei o que é uma vida normal. o conceito normal é uma coisa da estatística, da matemática, não tem em conta as emoções. 

as vidas nunca podem ser normais porque são sempre únicas. a tua vida tem de certeza coisas únicas, todos os dias, mas estamos tão formatados a esperar coisas gigantes, montanhas-russa a toda a hora, grandes amores, imensas vitórias inesperadas, sentimentos abruptos, que deixamos de dar valor à pequeninas coisas do dia-a-dia, que às vezes são as melhores coisas do mundo, e que nós ao ignorarmos perdemos-lhes o sabor.

Se eu te contar a minha vida, os meus dias, tu vais dizer uau! Tens uma vida fantástica! (e é verdade, tenho) mas aposto que se tu me contares os teus, eu vou dizer o mesmo. Porque é diferente da minha, tem emoções diferentes das minhas. Mas depende da forma como me contares. Se eu te disser que ontem acordei cedo para ir trabalhar e tive uma má notícia que me complica muita vida para os próximos tempos, e que almocei sozinha uma tosta mista numa esplanada e que quando lá estava começou a chover torrencialmente e eu tive de ficar debaixo do guarda sol à espera que passasse... e que fui buscar uma bicicleta que deixei para arranjar há 1 mês e que não estava pronta, e que tirei a tarde de folga  e liguei a 6 amigos e que estava toda a gente a trabalhar e não tinha namorado com quem partilhar as horas e que à noite fui jantar com um amigo que até é fixe mas eu gosto é de gajos altos e depois dormi sozinha não tem muita piada pois não? Mas se te disser que acordei cedo e fui trabalhar e recebi uma má notícia que me complica muito a vida para os próximos tempos e que decidi não me debruçar sobre o assunto e decidi não trabalhar à tarde (sou patroa, posso fazê-lo) e tirar a tarde para limpar a cabeça e que comi uma tosta mista numa esplanada debaixo de uma chuva e que me soube muito bem porque tinha boa música a tocar no mp3 e havia uma rapariga na mesa ao lado que estava na mesma situação e que nos rimos uma para outra e foi giro. E que depois raptei o namorado estrangeiro de uma amiga e levei-o a beber um fino à beira rio e depois devolvi-o e liguei a um amigo para jantar e fui jantar uma costoleta de vitela e que ele, que é geografo e que conhece as ruas todas desta pequena cidade, ao trazer-me para casa de carro,  demorou  4 vezes mais tempo a deixar-me em casa do que se eu tivesse vindo a pé, assim já tem alguma piada, certo?

It’s all about perspective! Não há vidas normais. E a tua vida, pelo que eu já li dos teus textos, não tem nada de normal. Saboreia-a e esmiúça as coisas pequeninas que lhe dão piada. ;)

Fico à espera!
Um abraço, 


e PIMBA a lírica responde isto, sem ser resposta porque ainda não leu a minha carta, concerteza

náufragos

quis ver-te chegar a bom porto, onde não carregasses mais cruzes nem te sentisses morto.
quis fazer esquecer-te de que os homens não trazem bagagem, mesmo quando navegam. mesmo quando embarcam noutra viagem.
por altos mares te levam os ventos que te agridem e não há quem te traga de volta. as cordas rompem-se, da voz e da poupa. não há quem grite por ti que já não tenha gritado, não há quem saiba de ti agora, que em algum momento já não tenha sabido. já não és novo, nem aqui, nem na china.
e no entanto envelheces. tu e as tuas manhas, as tuas fracas franquias de pescador de banheira. e lá ias tu, sempre sem enjoar. sem me enjoar.
sem as enjoar.
agora restam náufragos de ti e de todas as tuas interpessoalidades.
fica-te dado como desaparecido, fica-te bem a ausência.




e eu derreto-me toda porque podia ter sido eu escrever se ainda escrevesse sobre este assunto e soubesse escrever!

Sem comentários: