é verão e as leituras não estão em dia e quase dá vontade de não dormir, ou dormir 4 horas e trabalhar à base de café e cigarros. dá vontade de não trabalhar, na verdade, dizer à malta, peço desculpa, mas estou atrasada na leitura, sinal do not disturb colado na testa. tenho livros atrasados na mesinha de cabeceira, no parapeito da janela, na minha carteira, outro na mochila, há um outro que ainda não saiu do saco da livraria - um desrespeito total para quem se senta todos os dias a debitar palavras, costas dobradas sobre a secretária, cabeça a fervilhar, escolher o verbo, apagar o verbo, começar de novo.
isto para não falar dos poemas que quando era pequena (e era do mesmo tamanho que sou agora, apenas com a ilusão de que iria crescer) jurei que seria um por dia, antes de dormir. mas isso era no tempo dos aquários, era no tempo em que não sabia que antes de dormir é preciso lavar a loiça e estender a roupa e limpar a areia do gato e regar as plantas e escolher a roupa para o dia seguinte que as noites curtas não deixam manhã para isso
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lembrete - roubar um Torga ao pai. está calor e são precisas algumas pedras de granito nesta casa, um pedaço de montes e inverno frio a esta cidade. A Criação do Mundo para mim e os Bichos para eu pôr no chão a ver se o Adolfo se entretem com eles e me deixa ler um bocadinho, pode ser? eu sei que vais dar conta, pai, e ligar no dia seguinte - foste tu, não foste, que levaste os Torgas? Preciso deles e eu que já não minto dir-te-ei - fui, Pai, desculpa, mas não posso devolver, comi-os! e vais resmungar e eu vou explicar-te que são só partilhas antecipadas e que as minhas irmãs podem ficar com os serviços Vista Alegre, os pratos pretos, os oiros e os relógios da mãe (os teus são para mim menos aquele piroso que trocaste pelo Omega Lisboa com o tio, esse não o quero). e dir-te-ei para não te preocupares, na Bertrand ainda podes ir comprar outro Torga que ninguém quer saber do Torga nestes dias que correm, estão para lá todos atirados para um canto ao preço da chuva.
e meus amigos, não telefonem, não convidem para a bola, nem para o passeio, não digam quem lançou um album novo, que eu tenho o Japão e Islândia a meio, o longinquo Oriente por sublinhar, mais o Primo Levi e o Senhor Valérie sentados no chão do quarto com ar cansado de tanto esperar.
e homens bonitos que me oferecem livros porque sabem que as flores as compro eu, não se importam de ligar lá para Outubro?
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