sexta-feira, julho 11

minha cara little me ou o dia em que descobri que sou objecto de fábrica



A vida é um sítio estranho. Eu que não ligo a destinos, nem em reencarnações, nem em coisas que tal, tenho vindo a ser posta a prova nos últimos tempos, que é o mesmo que dizer que dEUS nosso senhor anda a brincar comigo, pôr-me coisas nos sapatos, deixar berlindes ao lado da cama, coisas esquisitas que me fazem pensar, eh lá! isto estava aqui ontem?

Por exemplo - de onde saiu esta criatura que ainda agora me caiu na sopa de espinafres? Anda uma pessoa a passear-se serenamente por este mundo virtual, a meter conversa com quem lhe parece interessante, que às vezes as mesas do café se tornam curtas e nem toda a gente tem um gosto especial pelas letras, e pimba! palavra puxa palavra sai-me uma garota que, sem lhe conhecer o tamanho das pernas, é eu em tamanho pequeno? Eu que já nem comigo posso, que me dedico às palermices para fugir deste corpo pequeno, e dou de caras uma little me? Para mais interessante e com bom gosto? as mesmas dores, as mesmas músicas, os mesmo amores...

Diz ela, nas conversas que mantemos, em lugares conhecidamente mal frequentados, que eu sou a "eu do futuro". tu és eu mas com mais 10 anos em cima, com responsabilidades, casamento e experiência. Cruz credo que se me tivesse aparecido assim alguém na minha vida, ao 23 anos, tinha fugido a sete pés e ainda agora estou a ver como me safo desta.

Ó moça... nem sei que te diga para além de que estas coisas me assustam muito. Sempre pensei que era única no mundo – é uma coisa de ego, sabes, tenho-me em muito boa conta, sempre me conheci muito bem e sei que não penso como as pessoas normais, que não vivo neste mundo, e às vezes penso que sou maluca mas não digo a ninguém porque sei que se um dia me apanham sou a do conto do Gabriel Garcia Marquez e nunca mais saio do hospital psiquiátrico. 

Estou contigo quando dizes que as pessoas se repetem, que a maioria das pessoas do mundo são pessoas-tipo - o benfiquista barrigudo, a esposa-taperware, o engraçadinho que nunca vai sair daquilo -  foram feitas numa fábrica na China e não vieram de Paris num bico do uma cegonha, mas ver que também eu saí de uma linha de produção... porra! Não me apetece nada! Afinal sou artigo da Alta Costura, limited edition, cara, mas feita na mesma cave pelos mesmos chineses de ordenados miseráveis. Queria ser artigo único, desenhada à mão, amadurecida ao sol do Alentejo e alimentada com flores e musiquinhas estranhas, objecto de arte, sabes? ou artesanato, irrepetível até nos defeitos. Não quero ir para sala de museu, mas sempre pensei que passaria pelo mundo sem me repetir e isso era o alento dos meus dias – vai Helena que não há referências para ti, não vale a pena olhares para os lados para ver que caminho seguir que tu só existes dentro de ti e só tu é que podes saber. Aposto que a esta hora estás para aí a rir-te e a pensar olha lá a egocêntrica... e podes rir-te à vontadinha que eu não me importo! Nunca me importei. Eu só não riu porque isto assusta um bocadinho.

E neste momento penso – o que é que faço com ela? Nunca mais falo com ela? Deixo-a ser única porque ser única foi a coisa que me deu mais força na vida? E deixo-a bater com a cabeça? Deixo-a fazer os meus erros? Ajudo-a a não fazer os meus erros e com isso tiro-lhe parte da piada da vida? Para que é que estou para aqui a dar conselhos, se nem de comer me lembro e ando para aqui feita tolinha a escrever longas cartas a estranhos? Pego o próximo combóio para Lisboa e mostro-lhe a minha cara e digo-lhe que vai ter rugas e dores no coração tão grandes que nem as pernas vão saber andar?

Ó minha querida, minha little me... tu foge! Faz de conta que nunca me viste, faz de conta que nunca ouviste falar de mim há 2 anos. Faz de conta que te mudaram outra vez o tema e não só não me vais estudar enquanto case-study de empreendedorismo como também não serei case-study de vida.
É que eu já tenho uma little me, sabes? É uma coisa genética. E também tenho uma big me. Na minha família esta alma anda de um lado para o outro e se eu sou a minha tia Lena também sou a minha sobrinha Rita, mas aí... o genes... a comida, o mesmo sol, os mesmos livros, o mesmo grande avô Albertino... isso é outra coisa. 

Tu foge, querida! Esquece tudo o que te disse. TUDO!  Não voltes a esta casa, não leias o que escrevo, não ouças as playlists, não venhas ao Norte! É o único conselho que te posso dar. Continua a ser única - objecto de arte – coisa que se passeia no mundo como se este sítio não fosse feito para ti. 

Se um dia me apanharem, se um dia vier o homem da rede dos hospícios e eu por desleixo me mostrar e for levada, para um quartinho pequeno onde o sol entra 27 segundos por dia, e se me deixarem fazer um telefonema, será para ti que ligarei e tu irás lá e dirás que não sou louca, que eu sou tu mas mais velha e ficaremos lá as duas a rir como tolinhas, ok?

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