terça-feira, julho 8

esta carta não a envio

E diz a lírica, que deve ser uma pessoa interessantíssima, é de certeza, mas para mim é uma estranha com quem eu troco conversas e sorrisos:

"A cena do destino! Isto tem a ver com o aparecimento do “Tal”. Ou seja, se acreditares que existe uma pessoa compatível contigo a um nível eterno (para mim existem várias e algumas que estão “destinadas” a serem amigos para todo o sempre), então onde é que está? Para acreditares no “Tal” tens de acreditar que ele vai aparecer eventualmente, até porque há coisas que não se procuram certo? No entanto, quando os encontras, tanto aos amigos como aos tais da tua vida, teve de existir uma coincidência. Para mim, não é coincidência, mas sim karma. O karma também é uma forma de destino, faz o bem e o bem receberás em troca. See no evil, hear no evil, speak no evil. Coisas boas acontecerão. E isso é uma forma de destino. No filme “Mr. Nobody” (com o jeitoso do Jared Leto)há uma quote assim “Todos os caminhos, que são caminhos são certos”. E acho que é por aí, não tem a ver com religião, tu continuas com o livre-arbítrio da tua vida, mas em termos de salva-vidas ou empata-vidas eles aparecem aleatoriamente. Já te tornaste amiga de alguém que hoje caracterizas como um “amigo certo, na altura certa” e também já tiveste amores que podiam ter sido certos, mas vieram na altura errada.
Essa “altura errada” para mim, é uma não-altura. Se não era suposto ser para sempre, então acabou. Serve de lição (e certamente aprendeste qualquer coisa, daí o não-arrependimento) e quando a altura certa chegar, há-de ser perfeito.
Isto é tudo bonito porque há sempre alguém que há-de chegar (até porque não podes criar amores como plantas em vasos..) mas o problema é o tempo de espera.
Agora anda a circular um vídeo no facebook, do Gustavo Santos, sobre até quando esperar pelo amor da tua vida. Ainda não vi, para ser sincera porque me parece uma daquelas teorias de life-coaching que são um tanto ou quanto inúteis, mas nunca se sabe!
E acho que é isto!

Bom dia!"

e eu que não perco uma oportunidade para uma boa conversa ponho logo mãos à escrita




Quanto ao tal, não me acredito mesmo. Nada. Ainda menos depois deste fim-de-semana em que o tal era o oposto absoluto de mim. A única coisa que as nossas vidas tinham em comum era o facto de ambos sermos esquerdinos e de esquerda. A vida dele era, em todos os aspecto, o inverso da minha. Eu classe média-alta e ele de uma família miserável da Irlanda onde por vezes faltava comida à mesa, ele o primeiro licenciado da família eu com um avô professor universitário e e com 2 gerações de licenciados na área da medicina, ele com PhD em  Política Asiática a ensinar numa Universidade de renome, a 3 anos de ter emprego para a vida garantido e eu à 3 anos deixei a minha carreira estável para abrir um negócio que não dá dinheiro nenhum, ele a viver num apartamento que não tem um quadro na parede e eu a pensar que mais dia menos dias não vou ter mais paredes onde desenhar, ele com as mãos mais macias do mundo porque não prega um prego, não escreve com caneta, passa o dia a pensar e a estudar e eu cheia de cortes e tinta nas mãos porque as meto em todo o lado, ele um introvertido e eu que não me calo, ele que sabe imensas coisas e acha que as suas histórias não interessam a ninguém e eu que gosto de mostrar as coisas bonitas do mundo a todos com quem me cruzo, na esperança que a minha felicidade possa tornar o mundo um sítio mais feliz. Estavamos a falar de anti-heróis, coisa que eu removo da minha vida – tudo o que é podre e tem nódoas de gordura e dentes podres e podridão interna, falta de moral, nem vejo nem consigo lidar com – e ele pediu-me um exemplo e eu falei-lhe de um personagem de um livro do qual nem me lembrava do título e comecei a descrever o personagem e ele adivinhou em 3 segundos. E desatou a rir-se porque adorou aquele livro exactamente pelos mesmos motivos que eu odiei. A realidade crua e brutal, porque ele aceita a realidade toda, com toda a sua podridão e aquilo é só a descrição de uma podridão humana tão bem feita e ele leu-o na cidade em que ocorre e viu aquilo tudo e gostou por isso mesmo. Ele que é a pessoa mais calma e organizada do mundo consegue viver com a podridão e eu que sou um saco de energia a correr de um lado para o outro feita louca tenho de criar o meu mundo feito de flores e correcção moral... passamos 48h juntos, os nossos assuntos são os mesmos e só o facto de nos termos cruzado foi um milagre. 48h totais, discutimos tudo, bebemos vinho, passeamos junto ao rio, pedimos comida e não comemos quase nada, saímos com os meus amigos e ele parecia que foi feito para estar ali, acabamos em minha casa e não dormimos nem 1 hora e eu cheia de energia e ele morto de sono. Levei-o à magnífica praia fluvial no domingo à tarde e eu triste por ela estar vazia e os shoppings cheios e ele a pensar por que carga de água é que eu queria que aquele paraíso fosse conhecido e apesar de odiar o capitalismo tanto como eu prefere ter a malta às compras para termos o céu só para nós.  48h - nada mais. Nunca mais vamos falar nem nunca mais nos vamos ver e isso não tem importância nenhuma. Não deixou de ser amor, não deixou de ser para sempre. 

O próximo tal há-de aparecer e eu vou ser uma pessoa diferente como somos sempre pessoas diferentes todos os dias. Hoje sou completamente diferente da que era quando conheci este personagem. E se amanhã me aparecer outro amor vai mudar-me de tal forma que serei incapaz de reviver um outro amor antigo. Por isso também estranho a tua ligação aos homens que já deixaste. Se tu não és a mesma pessoa, mesmo que eles sejam (porque os rapazes têm dessas coisas e não crescem, às vezes), como podes esperar ser feliz? A felicidade que tiraste dessas relações já foi, já existe, já a tens e é tua e é para sempre. Não vais voltar a ter borboletas na barriga, não vais ficar maravilhada com uma coisa qualquer porque já lá estás há demasiado tempo para te surpreenderes. Com isto não te digo que deixei de acreditar em relações longas, longos casamentos para a vida. Acredito e quero acreditar e preciso de acreditar. Mas para isso é preciso que as coisas cresçam continuamente, as 2 pessoas cresçam continuamente e construam continuamente um mundo novo único por ser construído a 2 mãos. Quando as relações terminam, terminam, mesmo que não se saiba porquê. Ficar agarrado a elas é querer embalsamar o cão que já morreu para o ter em casa. Digo eu. Sei lá. Parece-me assim, hoje.

Ó musa, o mundo é o sítio mais maravilhoso que existe porque tem TANTAS realidades diferentes... não sei se já te disse, mas eu não sei o que é estar aborrecida. Não sei mesmo. As 24h do dia não chegam para todas as coisas que eu quero fazer, todos os pensamentos que eu quero ter, todas as conversas, todos os livros, filmes, desenhos... é impossível. E olha que eu durmo pouquinho, vivo de cafés e tenho tempo no meu trabalho para fazer destas coisas e mesmo assim o tempo não chega para o mundo inteiro. Ainda agora de manhã falava com uma amiga e dizia-lhe que tenho tanta pena de não ter paz, não ter calma. Quero em todos os momentos captar tudo, guardar tudo dentro de mim feito tatuagem, lembrar-me de tudo, ser tudo. Esqueço-me de comer e esqueço-me de dormir e um destes dias vou ficar louca, e vou falar sozinha na rua e a ideia não me agrada por aí além porque eu quero saber tudo para ser sábia, não para ser louca. O que eu queria ser era sábia e ter paz e ter uma família e filhos e fazer bolos e assados e agora não consigo nem lembrar-me de me alimentar a mim própria...

Esta quinta-feira vou começar um curso de meditação mindfulness. Tenho esperança que me cura desta sede e me ajude a encontrar alguma paz. E vou fazer uma camisola para esta minha amiga porque ela acha que se eu estiver a fazer a camisola vou ter de ser calma e não vou pensar mas eu, que já fiz uma data de camisolas para entreter os dedos, bem sei que as faço com o mesmo frenesim e excitação com que vivo e tenho alguma dúvida se vai funcionar, mas vou tentar.

Ó rapariga, até já tenho pena de ti e do dia em que tu disseste conta-me tudo! Não vou contar. Esta carta não ta envio. Vou poupar-te um bocadinho a esta compulsão louca de escrever tudo, sobre tudo. Talvez um dia te cruzes com este blogue e saibas que escrevi isto para ti. E para mim. E te rias um pouco.

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