Quanto ao tal, não me acredito mesmo. Nada. Ainda menos
depois deste fim-de-semana em que o tal era o oposto absoluto de mim. A única
coisa que as nossas vidas tinham em comum era o facto de ambos sermos esquerdinos
e de esquerda. A vida dele era, em todos os aspecto, o inverso da minha. Eu
classe média-alta e ele de uma família miserável da Irlanda onde por vezes
faltava comida à mesa, ele o primeiro licenciado da família eu com um avô
professor universitário e e com 2 gerações de licenciados na área da medicina, ele com PhD
em Política Asiática a ensinar numa
Universidade de renome, a 3 anos de ter emprego para a vida garantido e eu à 3
anos deixei a minha carreira estável para abrir um negócio que não dá dinheiro
nenhum, ele a viver num apartamento que não tem um quadro na parede e eu a
pensar que mais dia menos dias não vou ter mais paredes onde desenhar, ele com as
mãos mais macias do mundo porque não prega um prego, não escreve com caneta,
passa o dia a pensar e a estudar e eu cheia de cortes e tinta nas mãos porque
as meto em todo o lado, ele um introvertido e eu que não me calo, ele que sabe imensas coisas e acha que as suas histórias não interessam a ninguém e eu que gosto de mostrar as coisas bonitas do mundo a todos com quem me cruzo, na esperança que a minha felicidade possa tornar o mundo um sítio mais feliz. Estavamos a
falar de anti-heróis, coisa que eu removo da minha vida – tudo o que é podre e
tem nódoas de gordura e dentes podres e podridão interna, falta de moral, nem
vejo nem consigo lidar com – e ele pediu-me um exemplo e eu falei-lhe de um
personagem de um livro do qual nem me lembrava do título e comecei a descrever
o personagem e ele adivinhou em 3 segundos. E desatou a rir-se porque adorou
aquele livro exactamente pelos mesmos motivos que eu odiei. A realidade crua e
brutal, porque ele aceita a realidade toda, com toda a sua podridão e aquilo é
só a descrição de uma podridão humana tão bem feita e ele leu-o na cidade em
que ocorre e viu aquilo tudo e gostou por isso mesmo. Ele que é a pessoa mais
calma e organizada do mundo consegue viver com a podridão e eu que sou um saco
de energia a correr de um lado para o outro feita louca tenho de criar o meu
mundo feito de flores e correcção moral... passamos 48h juntos, os nossos
assuntos são os mesmos e só o facto de nos termos cruzado foi um milagre. 48h
totais, discutimos tudo, bebemos vinho, passeamos junto ao rio, pedimos comida
e não comemos quase nada, saímos com os meus amigos e ele parecia que foi feito
para estar ali, acabamos em minha casa e não dormimos nem 1 hora e eu cheia de
energia e ele morto de sono. Levei-o à magnífica praia fluvial no domingo à
tarde e eu triste por ela estar vazia e os shoppings cheios e ele a pensar por
que carga de água é que eu queria que aquele paraíso fosse conhecido e apesar
de odiar o capitalismo tanto como eu prefere ter a malta às compras para termos
o céu só para nós. 48h - nada mais. Nunca
mais vamos falar nem nunca mais nos vamos ver e isso não tem importância
nenhuma. Não deixou de ser amor, não deixou de ser para sempre.
O próximo tal há-de aparecer e eu vou ser uma pessoa
diferente como somos sempre pessoas diferentes todos os dias. Hoje sou
completamente diferente da que era quando conheci este personagem. E se amanhã
me aparecer outro amor vai mudar-me de tal forma que serei incapaz de reviver
um outro amor antigo. Por isso também estranho a tua ligação aos homens que já
deixaste. Se tu não és a mesma pessoa, mesmo que eles sejam (porque os rapazes
têm dessas coisas e não crescem, às vezes), como podes esperar ser feliz? A felicidade
que tiraste dessas relações já foi, já existe, já a tens e é tua e é para
sempre. Não vais voltar a ter borboletas na barriga, não vais ficar maravilhada
com uma coisa qualquer porque já lá estás há demasiado tempo para te
surpreenderes. Com isto não te digo que deixei de acreditar em relações longas,
longos casamentos para a vida. Acredito e quero acreditar e preciso de
acreditar. Mas para isso é preciso que as coisas cresçam continuamente, as 2
pessoas cresçam continuamente e construam continuamente um mundo novo único por
ser construído a 2 mãos. Quando as relações terminam, terminam, mesmo que não
se saiba porquê. Ficar agarrado a elas é querer embalsamar o cão que já morreu
para o ter em casa. Digo eu. Sei lá. Parece-me assim, hoje.
Ó musa, o mundo é o sítio mais maravilhoso que existe porque
tem TANTAS realidades diferentes... não sei se já te disse, mas eu não sei o
que é estar aborrecida. Não sei mesmo. As 24h do dia não chegam para todas as
coisas que eu quero fazer, todos os pensamentos que eu quero ter, todas as
conversas, todos os livros, filmes, desenhos... é impossível. E olha que eu
durmo pouquinho, vivo de cafés e tenho tempo no meu trabalho para fazer destas
coisas e mesmo assim o tempo não chega para o mundo inteiro. Ainda agora de
manhã falava com uma amiga e dizia-lhe que tenho tanta pena de não ter paz, não
ter calma. Quero em todos os momentos captar tudo, guardar tudo dentro de mim
feito tatuagem, lembrar-me de tudo, ser tudo. Esqueço-me de comer e esqueço-me
de dormir e um destes dias vou ficar louca, e vou falar sozinha na rua e a
ideia não me agrada por aí além porque eu quero saber tudo para ser sábia, não
para ser louca. O que eu queria ser era sábia e ter paz e ter uma família e
filhos e fazer bolos e assados e agora não consigo nem lembrar-me de me
alimentar a mim própria...
Esta quinta-feira vou começar um curso de meditação
mindfulness. Tenho esperança que me cura desta sede e me ajude a encontrar
alguma paz. E vou fazer uma camisola para esta minha amiga porque ela acha que
se eu estiver a fazer a camisola vou ter de ser calma e não vou pensar mas eu,
que já fiz uma data de camisolas para entreter os dedos, bem sei que as faço
com o mesmo frenesim e excitação com que vivo e tenho alguma dúvida se vai
funcionar, mas vou tentar.
Ó rapariga, até já tenho pena de ti e do dia em que tu
disseste conta-me tudo! Não vou contar. Esta carta não ta envio. Vou poupar-te
um bocadinho a esta compulsão louca de escrever tudo, sobre tudo. Talvez um dia te cruzes
com este blogue e saibas que escrevi isto para ti. E para mim. E te rias um
pouco.
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