quinta-feira, julho 24

Adília Lopes que eu queria Tília



Foi há um ano. Foi talvez o início do fim mas isso não tem importância nenhuma porque na verdade só ela é que interessa. A Adília. A Adília Lopes que eu queria Adília Tília porque tinha aquele verdes olhos que mereciam nome de árvore.


Era um rato quando me apareceu na clínica. Um rato, cheio de pulgas, pêlo ralo e um medo a subir cauda acima. Lembro-me das peixeiras das Caxinas que a trouxeram - ó doutora, fique-me com ela! está desde manhã cedo a miar-nos para o peixe e sabe que o meu marido me mata se eu levo um gato para casa! eu a olhar e a pensar que o patrão me mata se lhes fico com o gato, que para isso é que há gatis. e eu a olhar para aqueles olhos enormes que eram a única coisa que parecia ter vida naquele bicho...





Lembro-me de tudo, minha querida. Lembro-me de como nos mordias e dizias todos os dias eu sou a rainha da casa mas não se esqueçam que sou caxineira! lembro-me como às vezes punhas o boné para trás, que é como quem diz que espetavas as orelhas e nos olhavas de lado, com ar de fuínha e de como te derretias com um beijo na testa. Lembro-me de como adoraste o Adolfo, como lhe lavaste os olhos e lhe bateste quando ele te roubava o mimo, lembro-me como atiravas tudo para o chão quando te davam os ciúmes. Lembro-me de tudo, melhor gata do mundo! Lembro-me disto, desta fotografia, todos os dias. Pensas que era por desleixo que deixava o copo com água em cima da mesa? não era, Adília, era por isto, por esta tua sede de fazer asneiras, por esta vontade que tu tinhas de ser gente, por este teu gozo de beber os meus copos de água até ao fim.


Lembro-me de te pôr o cateter, lembro-me dos nossos últimos 20 minutos, a tua cabeça encostada à minha cara - sabias tudo, não sabias? - um ronronar baixinho que o cancro do pulmão não te deixava mais, os olhos sempre à procura dos meus, lembro-me de adormeceres devagarinho, só nós as duas naquele consultório, devagarinho a cabeça a deslizar na minha mão... lembro-me como se fosse agora, minha querida, da tua paz, a olhar para mim como quando adormecias todos os dias, cabeça no meu braço.

Há quem diga que não há como o primeiro amor - é mentira. Mas há amores que nunca se desfazem. Há saudades que ficam sempre imaculadas, e tu, minha querida gata, és ainda e sempre a melhor gata do mundo! Hoje és uma gerbera vermelha no parapeito da varanda e Rita disse-me, a semana passada, que te diz sempre olá sempre que passa no canto do jardim onde vives na casa dos meus pais. Existirás sempre enquanto houver memória de ti, que é o mesmo que dizer que existirás, pelo menos, enquanto eu existir, ó esfinge!



Sem comentários: