Eram 4 da manhã quando ele me deixou à porta de casa. Podia tê-lo convidado a subir. Podia ter apagado as dores da alma no corpo. Ainda olhamos um para o outro, sim, era possível, os 2 a fingir a ausência de dor numa noite de sexo e no dia seguinte tudo seria na mesma. Ficaria para sempre a história, talvez o nervoso miudinho da próxima vez que me oferecesse boleia, mas nada mais que isso. Sim, era possível, mas não quis. Foi só o terceiro corpo que rejeitei essa noite. O terceiro homem que não se importava nada de fazer de conta que me lambia as feridas para poder subir até à minha cama. Não me choca nada a ideia, não pensem que sou púdica, e lá chegará o dia em que não importarei de acordar de manhã com um corpo perdido ali ao lado, mas precisava de dormir. Tinha dançado e tinha-me rido e tinha bebido e comido cerejas e agora queria o meu descanço de quem merece o seu próprio sono, do seu próprio umbigo.
Para além do mais não tinha nada para o pequeno-almoço.
Acordei já passava das 2. Já nem me lembro da última vez que me deixei arrastar horas a dentro, com o sol a bater-me nas pernas, vira para um lado vira para o outro, dar-me a mim própria o gozo de bronzear no ninho, o gato a passar de um lado para o outro, na ansia do mimo matinal, a enrolar-se nos meus dedos e desistindo logo de seguida, aborrecido.
Não havia nada para pequeno-almoço. Não havia leite, nem iogurte, nem laranjas, não havia pão, não havia croissants nem fiambre. Havia café e havia um cigarro cravado no último minuto à janela do carro, para amanhã de manhã, era o que havia. Felizmente havia café e um cigarro e uma varanda húmida que depois do sol, o céu deu ares da sua graça e caiu para me poupar à rega das sardinheiras.
Mrs Dalloway said she would buy the flowers herself e, fumado o cigarro e tomado o café, gato no colo a cravar as unhas nas minhas coxas, fui comprar as cerejas, o fiambre, o croissant, o leite, o iogurte grego, as laranjas para o sumo, e mais uns morangos e um brie para mais logo.
Mrs Dalloway said she would buy the flowers herself e eu sou como elas, presa dentro das minha cabeça, um cérebro que sempre viu outro mundo, fechado dentro dos parietais e occipitais e frontal e temporais, encaixado como se pertencesse e não como se estes fossem jaula. E sim, como elas trago a tempestade lá dentro, mil palavras, 4 angústias, 7 dores agudas, 25 crónicas e um pequeno derrame, e visto de fora, tudo composto, lá vou eu de vestido, unhas pintadas, comprar flores.
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