Meu caro amigo, sei que aí estão jogando futebol , e que hoje fazes anos e por isso te escrevo.
És um dos meus primeiros amigos. O meu pai, talvez por não se lembrar de acalantos, ninou-me com histórias de pequenos burgueses. Lembras-te, Chico, da viagens Porto-Alentejo, com a família toda, os 6 no carro, antes dos carros terem ar condicionado e das auto-estradas ligarem rapidinho o país, todos a cantar em uníssono e tu sempre a saltar no mesmo sítio, ao segundo 145, mesmo quando elas se iam cruzar, e o auto-reverse a ter de te virar do avesso?
Tu não sabes, nunca provaste o feijão com arroz lá de casa, nem provaste um beijo a saber à hortelã do jardim da minha mãe, não sabes que o bosque que um muro alto proibia é na estrada Viana-Barcelos, nem sabes que fiz samba e amor até mais tarde, que o doce predilecto era a tarte de chocolate e natas e que com açucar com afecto o fiz vezes sem conta para ele parar em casa, qual o quê, ele sumiu no mundo sem me avisar - foi tudo ilusão passageira que a brisa primeira levou. Não sabes, Chico, que a Rita é um homem, não sabes que eu continuo à espera do terceiro e que eu um dia dancei uma valsinha com alguém que levou um pedaço de mim. Ai Chico, quem o viu e quem o vê...
O meu coração já não é um pote cheio até aqui de mágoa e já estou como o Pedro, à espera do trem e até já me pego cantando sem mais nem porquê mas ainda é difícil acordar calada e com tanta confusão de perna ainda procuro as com que seguir.
ó Chico, tu que escreveste a minha vida toda, que a cantaste mesmo antes de eu ter nascido, que és parte do meu corpo feito tatuagem, inventa-me agora uma história de amor, sem ladrões e sem malandros, sem canções desnaturadas ou folhetins.
Sei que estás em festa, pá, e eu queria só dar-te um abraço, desculpa lá o chorinho.
Parabéns deste lado do mar.
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