Tenho uma pena tremenda das coisas que, por uma mero acaso, se tornam inúteis. Não é que eu tenha alguma coisa contra a inutilidade das coisas - ainda hoje defendi com unhas e dentes a minha figueira-violino quando alguém ao jantar resumiu a sua existência ao facto de, de facto, não dar figos. Fui até um pouco agressiva. Eu cá para mim, tenho pouca preocupação em ser útil para mais do que mim própria e para os poucos que se chegam para jantar e estou convencida que cada um é o que lhe apetece ser e não deve nada a ninguém e, não obstante eu adorar figos, não aponto o dedo à figueira-violino que se estica no canto da sala e a quem eu limpo o pó folha a folha mais do que ao aparador da sala porque gosto dela (não é que não goste do aparador da sala) mesmo que ela seja inútil. O aparador da sala também é quase inútil. Na verdade, nesta casa, somos todos uma cambada de inúteis, no conjunto ficamos todos muito bem e temos como rei o Adolfo, o gato mais bonito e provavelmente mais burro do mundo. Por mim, tudo óptimo. Sinto-me em casa.
Mas, ainda assim, há coisas que se me sofrem no coração pela sua inutilidade que nem a estratosfera salva.
A primeira são as luvas que perderam o par. O meu coração dói-se sempre que vejo uma luva perdida no passeio ou no banco de um tram (eu sei que aqui por Portugal não é a coisa mais vulgar do mundo, mas mundo fora há muitos trams e em meses de inverno têm sempre uma luva perdida e por cada luva perdida há uma outra que também, numa bolsa ou numa mochila, se vê sem par). Não vou, senhores, falar-vos das meias que perdem a parelha. São um assunto malcheiroso e demasiado banal (acontece-nos a todos!) para uma história digna como esta! Uma luva sem par não serve para nada. É lixo. E pode ter andado de mãos dadas na mais plena paixão que, sozinha, de nada vale. E isso é muito triste.
A segunda coisa que por um acidente ganha inutilidade são os baralhos de cartas a quem faltam um 5 de ouros, ou um 9 de espadas. Pode já ter jogado king e ter ganho tudo a nulos e ser um às na canasta e saber o burro em pé e o peixinho, mas a partir do momento em que uma das 52 cartas decide abandonar o barco (que sem os jokers sobrevivem quase sempre) perde o valor todo.
Eu, com as luvas, sempre tive muito cuidado e até à data, penso nunca ter desemparelhado nenhuma. Uso a mesma técnica que uso para os guarda-chuvas. Eu nunca perdi um guarda-chuva. E mais, sei sempre onde ele está. É um guarda-chuva bestial de 10 varetas, muito resistente, muito bonito, branco com pintas vermelhas, que fica mesmo bem com o casaco vermelho que eu vestia no dia em que me chovia torrencialmente em cima e que a minha mãe, não conseguindo cobrir com o seu pequeno guarda-chuva azul-da-cor-do-seu-casaco, decidiu comprar para mim naquela loja que vende chapéus e guarda-chuvas no início da rua do Souto. É um guarda-chuva daqueles em que se pode confiar. Faça chuva ou faça sol está sempre onde eu o deixei - na mala do carro e por isso nunca o hei-de perder. O mesmo me acontece com as luvas. Tenho vários pares e gosto muito delas, mas para evitar esta coisa terrível de lhes perder o par - e com isso torná-las em objectos inúteis - raramente as tiro da primeira gaveta da cómoda.
Já com os baralhos de cartas, não tenho tanta sorte. Tenho um baralho muito bonito, com poemas da Florbela Espanca, que um amor me ofereceu sem saber que eu sempre a achei depressiva demais para o meu género - deve ter confundido o meu terrível hábito de cantar mal para espantar os espíritos com paixão literária. Ainda assim era um bonito baralho de cartas e infelizmente acho que nunca chegou a jogar uma bisca sequer. Sofre da horrível falta da manilha de paus, patologia letal num baralho de cartas. Como sofro muito com esta perda de utilidade (eu que gosto de ser inútil) pus o baralho no móvel da entrada e quando alguém vem jantar a minha casa tem o direito a escolher uma carta e levar para casa para ser marcador de livros. Não é bem o mesmo que ser trunfo mas é melhor do que o lixo. Hoje a Marina levou o Às de Copas e embora o poema falasse dos olhos frios (e os olhos da Marina são uns doces), foi uma carta que até fora do baralho fez sentido.
Mas, ainda assim, há coisas que se me sofrem no coração pela sua inutilidade que nem a estratosfera salva.
A primeira são as luvas que perderam o par. O meu coração dói-se sempre que vejo uma luva perdida no passeio ou no banco de um tram (eu sei que aqui por Portugal não é a coisa mais vulgar do mundo, mas mundo fora há muitos trams e em meses de inverno têm sempre uma luva perdida e por cada luva perdida há uma outra que também, numa bolsa ou numa mochila, se vê sem par). Não vou, senhores, falar-vos das meias que perdem a parelha. São um assunto malcheiroso e demasiado banal (acontece-nos a todos!) para uma história digna como esta! Uma luva sem par não serve para nada. É lixo. E pode ter andado de mãos dadas na mais plena paixão que, sozinha, de nada vale. E isso é muito triste.
A segunda coisa que por um acidente ganha inutilidade são os baralhos de cartas a quem faltam um 5 de ouros, ou um 9 de espadas. Pode já ter jogado king e ter ganho tudo a nulos e ser um às na canasta e saber o burro em pé e o peixinho, mas a partir do momento em que uma das 52 cartas decide abandonar o barco (que sem os jokers sobrevivem quase sempre) perde o valor todo.
Eu, com as luvas, sempre tive muito cuidado e até à data, penso nunca ter desemparelhado nenhuma. Uso a mesma técnica que uso para os guarda-chuvas. Eu nunca perdi um guarda-chuva. E mais, sei sempre onde ele está. É um guarda-chuva bestial de 10 varetas, muito resistente, muito bonito, branco com pintas vermelhas, que fica mesmo bem com o casaco vermelho que eu vestia no dia em que me chovia torrencialmente em cima e que a minha mãe, não conseguindo cobrir com o seu pequeno guarda-chuva azul-da-cor-do-seu-casaco, decidiu comprar para mim naquela loja que vende chapéus e guarda-chuvas no início da rua do Souto. É um guarda-chuva daqueles em que se pode confiar. Faça chuva ou faça sol está sempre onde eu o deixei - na mala do carro e por isso nunca o hei-de perder. O mesmo me acontece com as luvas. Tenho vários pares e gosto muito delas, mas para evitar esta coisa terrível de lhes perder o par - e com isso torná-las em objectos inúteis - raramente as tiro da primeira gaveta da cómoda.
Já com os baralhos de cartas, não tenho tanta sorte. Tenho um baralho muito bonito, com poemas da Florbela Espanca, que um amor me ofereceu sem saber que eu sempre a achei depressiva demais para o meu género - deve ter confundido o meu terrível hábito de cantar mal para espantar os espíritos com paixão literária. Ainda assim era um bonito baralho de cartas e infelizmente acho que nunca chegou a jogar uma bisca sequer. Sofre da horrível falta da manilha de paus, patologia letal num baralho de cartas. Como sofro muito com esta perda de utilidade (eu que gosto de ser inútil) pus o baralho no móvel da entrada e quando alguém vem jantar a minha casa tem o direito a escolher uma carta e levar para casa para ser marcador de livros. Não é bem o mesmo que ser trunfo mas é melhor do que o lixo. Hoje a Marina levou o Às de Copas e embora o poema falasse dos olhos frios (e os olhos da Marina são uns doces), foi uma carta que até fora do baralho fez sentido.
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