sábado, agosto 22

Coisas que o cérebro de esquece mas que o coração sempre sabe

Sou minhota.
Nascida tripeira e relutantemente arrastada para o norte em tenra idade, de nariz empinado típico das meninas da cidade levadas para a parvónia - ora diz pom, diziam os meus colegas e eu respondia orgulhosamente pão!  Ora diz pônte e eu teimava ponte! e eles riam-se e eu sobranceira contava em casa -parolos! Todos a correr para as escadas rolantes do shopping recém-inaugurado que só subiam, a dar a volta pelas escadas para voltarem a subir e eu a contar em casa - parolos, no Brasilia sobem e descem desde que eu nasci. Os meus pais meios perdidos de riso, meio assustados - como é que se tira a mania da cidade a estas miúdas que nós aqui é que estamos bem sem horas de ponta nem stresses de maior, vida tão mais fácil e pacata para família grande, a rir-se entre os dentes -continua a dizer pão e diz-lhes que sabe ao mesmo. Anos a fio a entrar no carro à sexta-feira - vamos para casa, finalmente,  vamos aos avós, a os primos, à cidade, ao cinema, aos museus, a serralves, à Foz, vamos à Foz dançar com os metrosideros da Austrália,  vamos comer gelados à Picologel. Vamos sair da aldeia que não é aldeia, só o é para quem vê cidades com prédios altos e buzinas dos carros na rotunda da Boavista. Anos a fio a achar que isto era o desterro, um filme por semana no cinema palácio, sem alternativas,  o teatro sempre com as peças pobres do teatro noroeste, de vez em quando as estreias nacionais (vá lá) da Olga Roriz.
Agora quando volto, quando os vejo com as camisas bordadas, os oiros nas orelhas, os corpetes, os lenços, o mar, o rio, o fogo de artifício a cobrir a ponte, desculpem, a pônte, quando oiço os bombos a fazer tremer a Praça da República,  não tenho qualquer dúvida que é daqui que eu sou e o meu coração grita pum-purum-pum-purum-pum-pum-pum e quando morrer dirá baixinho Viana é amor em arritmia sonora nas dissiconcronização severa dos Zés Pereiras.

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