domingo, novembro 1

e aquele dia em que assumes que já não tens medo do rio, que as águas turvas, os redemoinhos, os frigoríficos perdidos no fundo do leito, as água que agora em Novembro já são forte que ainda a semana passada choveu este céu e o outro, se já nada disso te mete medo, se cada corrente do seu caudal passa a ser só mais uma força da Natureza que te há-de levar a um sítio qualquer - para o fundo, para a tona, para a margem, que te levará até ao mar ou até à aldeia mais próxima, se já nada disso te assusta, se dizes que qualquer um desses sítios não é melhor nem pior do que qualquer outro e que já nem esta margem verde de choupos parece um sítio perfeito para ficar, se ficar também já não é o que te apetece e soltas os cabelos que por algum recato mantens apanhado em rabo de cavalo discreto, se botas batom vermelho às 3 da tarde apesar de ser dias dos mortos e contas tudo a 3 desconhecidos na cozinha, contas que mais um mês fechas a porta e vais fazer alguma coisa que ainda não sabes bem o que vai ser mas que há um rio - há sempre um rio - e é Novembro e será Dezembro e as águas serão fortes e a algum lado te há-de levar e esse sítio não será melhor nem pior e não será igual de certeza e não tem mal nenhum que eu sempre tive fôlego, sempre soube nadar em apneia, sem garrafa e sem máscara.

aqueles dias em que de um dia para outro nada é perfeito porque nada é ou será ou foi perfeito e não teres dono nem amarras nem os filhos que sempre quiseste e só o gato e só a casa (que também se vende se for necessário) e só um coração cheio de memórias boas e memórias más e histórias que nunca ninguém viveu (nem eu) e coisas que nunca sequer existiram e só essas coisas todas que parece que cabem em 120m2 de apartamento e corpo de pouco mais de metro e meio, só isso tudo já é tanto e sabes que o dia de amanhã vai ser fantástico porque amanhã vai haver um dia e tu vais ter de acordar de manhã para servir o pequeno-almoço e vais sair da cama arrastada e ainda assim o dia vai ser fantástico porque não há outra forma de fazer os dias e no momento em que escreves isto toca a Cherry Blossom Girl e tu olhas para o ombro direito, tocas nas flores que aí mandaste tatuar há mais de 2 anos e lembras-te que as flores de cerejeira são símbolo de quão frágil é a vida e de quão importante é aproveitar cada instante e que também os samurais as traziam nos olhos e pensas que ainda falta o Japão e as mil e uma coisas que ainda não fizeste, os mil e um caminhos, as mil e uma personagens que ainda não abraçaste e tudo é tão perfeito e nunca nada é perfeito nem tem de ser perfeito nem sequer se quer que seja perfeito e ainda assim este agora é perfeito.

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