domingo, novembro 15

Domingo há Cozido


Hoje fui à província (sempre quis dizer isto e nem é verdade que toda a gente sabe que só a malta de Lisboa é que vai à província,  eu só fui a casa dos meus pais que por acaso é numa aldeia) para descobrir que o sobrenome tem muita importância e que não é aleatória a localização que toma no nome completo - faz na verdade muita diferença o lugar de cada palavra em cada frase e aposto que o Gomes Ferreira não sofre das mesmas doenças dos Ferreira Gomes, ou dos Santos Gomes.
Era Cozido à Portuguesa por negócio meu. Na minha família ninguém dá nada a ninguém.  Tudo é negociado e já que a minha mãe me ligou com voz de mel a dizer que a granola de chocolate que lhe fiz com amor (em troca de uma coisa qualquer) há uns meses já tinha acabado e que talvez fosse hora de eu me ligar ao forno, eu cravei com toda a delicadeza um belo banquete carnívoro para toda a família. Cozido é daquelas obras de arte fervidas que só se come em casa da mãe e que as obriga à maior fidelidade com o talho, já que uma farinheira de diferente proveniência pode muito bem dar cabo de laços familiares com mais de 30 anos e isso não dá jeito nenhum.
E sim, já reparei que estou a desconversar. Voltemos ao sobrenome.
Nós gostamos muito de cozido. Todo o bom português (aposto que mesmo os vegetarianos) gosta muito de cozido. Aquilo é um abuso mas um cozido é um cozido e vai mais de toucinho fumado e uma coxinha de frango e só mais uma cenoura e um monte de couves e chega aí só mais um bocadinho de molho que na verdade é só a àgua de cozer as coisas, não há para aqui azeites nem natas e quando reparamos já só os com Gomes em último lugar continuavam a debulhar. Cunhado e mãe já com os talheres arrumadinhos, sobrinhos que até também são Gomes - mas lá para o meio - uma quer ver televisão e o outro já foi buscar um livro e proceder à leitura de wc. Restamos o meu pai, a minha irmã e eu. A debulhar. Devarinho. Olhamos uns para os outros e murmuramos entre 2 garfadas - ai já estou tão cheio mas isto é tão bom!
A minha mãe ri-se de nós e orgulhosa do banquete diz-nos - se estão cheios parem! Ao que em uníssono respondemos - não assim, ai pára! A nossa patologia de Gomes é uma insuficiência na hormona Leptina libertada pelo estômago em direcção ao centro da saciedade no cérebro. Ou falta de receptores cerebrais. Depois de algum debate chegamos a um diagnóstico preciso - nós somos obesos mentais. Em comum temos os facto de pensar assim
- oh pá já estou tão cheio! Devia parar, mas isto é tão rico! Como mais um bocadinho e logo tomo só um chá ao jantar. Talvez com uma torrada. Com um bocadinho de manteiga. Ai manteiga não,  antes uns oregãos. Ui com tomate e oregãos! Grelha-se o tomate um bocadinho na sertã... E um bocadinho daquele queijo que até já tem um pouco de bolor e é um crime ir para o lixo. Ai que a courgete também está a precisar de ser comida. E o pimento! Ai, uns pimentos recheados... isso é que era! Com um copinho de vinho... isto entre uma garfada de carne de vaca e outra de batata e um chega aí o molho que o arroz já está um bocadinho seco.
Só para que a história fique bem completa, a sobremesa foi diospiros e bolo de abóbora e nozes com uma bola de gelado de baunilha com granola.
Eu vi gente a lanchar e não digo quem foi.
Aposto que houve alguns que até jantaram como gente grande.
Eu,  para me redimir, lavei os dentes mal cheguei a casa e fiz um chá boa digestão e liguei a televisão para ver um episódio do Masterchef mas não ponho de parte a hipótese de umas uvas mais daqui a nada porque, me lembro agora, ainda não comi as 3 peças de fruta diária recomendadas pela OMS.
Bem hajam Gomes do meu coração!

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