- Ponham um sinal proibido em todos os tipos que percebam de música!
Acreditem em mim que nunca me apaixonei por ninguém que não soubesse fazer perfeitas passagens de Tom Waits para a Amália de dela para o Nick Cave e seguir daí para a Billie Holliday ou para os Gaiteiros de Lisboa. Sou, claramente, uma tipa com excelente gosto musical (modéstia à parte) e péssimo gosto para os amores. É que estes gajos nos lixam completamente a vida.
O primeiro amor de que me lembro - assim de escrever poemas de adolescente em inglês e de ter insónias depois de ele me deixar de mota em casa depois do cinema - nunca mais andei de mota e já vão mais de 20 anos - passava-me cds piratas depois das aulas de biologia e com o ar mais casual do mundo dizia "tens de ouvir isto". Tinha suíças aos 17 anos e tocava baixo numa banda (como podia uma pobre adolescente resistir?) e apesar da sua coolness, era comigo - a croma melhor aluna da turma) que ia às sessões do cineclube à segunda feira. Ainda hoje (e desde que fiz 18 nunca mais o vi) não há música dos dEUS que não me leve até ele e àquele primeiro charro que fumei em Santiago. É que o que estes tipos fazem é incrustar-se dentro das notas musicais, dentro dos acordes e até dentro das pausas de músicas que nos acompanharão para o resto da vida!
Vão por mim que os conheço de gingeira.
O meu amor seguinte, para curar a adolescentite aguda - nunca lhe escrevi um poema embora ele merecesse, que foi um namorado impecável e eu não devia ter-lhe partido o coração como suponho, agora, que parti - encheu-me a aparelhagem com Spain, Mazzy Star e Mojave 5 e Tom Waits e Morfine e Tinderstics e mais uma data de coisas superdepressivas mas que lhe ficavam a matar porque ele dançava como o Ian Curtis e escrevia nos cds que me oferecia os nomes dos albuns com letras decrescentes e tortas numa vã tentativa que coubesse ali tudo. Convenceu mais de muitas vezes a ir a concertos em vésperas de exames, mesmo que isso lhe desse para chumbar de ano e lhe valesse o verão a trabalhar para não ouvir dos pais. Era a única pessoa que eu conhecia que tinha um minidisc que andava sempre enfiado nas calças sempre tão largas, ele tão magro. Chegava a minha casa e ainda antes de tirar o casaco ligava-o à aparelhagem ranhosa e dizia "tens de ouvir isto" e eu servia-lhe um prato gigante piramidal de comida que ele comia até ao último grão de arroz e éramos felizes. Explicava-me depois de comer (que enquanto houvesse comida no prato não se ouvia um ai, só o raspar do garfo no prato) a história da Factory de Manchester e a musicalidade nórdica da Bjork e do Jay Jay Johanson.
Se me lembro de tudo isto hoje, se me lembro de todos eles como se fossem tocar-me à campainha a qualquer momentos, é porque de tal forma se meteram dentro da música que oiço todos os dias que é como se todos eles, alternadamente, me acompanhassem enquanto cozinho só pela playlist que ponho a tocar nas colunas em cima do frigorífico.
O seguinte foi o pior.
Adenda à regra número um - MUITO IMPORTANTE - se algum amor vos aparecer e vos fizer uma mixtape, espetem-lhe de imediato uma faca afiada entre o 4º e o 7º espaço intercostal, mais para o lado esquerdo, e rodem. Não tentem fugir, tal não é possível. Nunca Ninguém Ever sobreviveu a um amor que faz mixtapes.
Foi por este que abandonei sentado no parapeito de uma janela de um 4º andar um moço impecável. Ontem, a limpar o aparador da sala, olhei de canto para o 5 cds com nome poético que sei que trazem as Breeders e Um Zero Amarelo e os Belle & Sebastian e Suba e Carlos Paredes e faróis que até aí eram só meus.
Se tiverem, como eu, a música à flor da pele, mantenham, melhor, imponham uma distância mínima de 750m ddesta gente. LONGE! Toda a boa música desde 2002 a 2014 tem hoje aquele travo amargo no pós boca da saudade de tempos que já não existem e que foram felizes. Não é que tenham sido sempre felizes, mas foram-no no som, e o som foi o que ficou. É que é muita música e embora digam que é possível, eu acho impossível uma pessoa limpar-se do Morrissey (e dos Smiths) e do Vinicius e pior, de algumas músicas do Chico, que esta gente tem uma lata do caraças e rouba tudo! Rouba até coisas que já eram nossas antes de nós nascermos!
Sai de mim coisa ruim! Não vos conto quantas músicas dos The National este tem, quantas do Nick Cave mais o Je t'aime moi non plus, Feits, Kings of Convinence ou Sigur Ros e a Bebel Gilberto a cantar o Samba e Amor, quantos Gaiteiros e Zecas nem vos conto que tivemos uma gata chamada Adília que nos mordia as mãos por causa da Naifa. Quando me deixou, parada pregada na pedra do porto, levou quase todas as músicas do mundo. A minha irmã chegou a sugerir que eu aprendesse a gostar de rap ou hipy hopy. Não aconteceu. Arrumei o Jacques Brel e a Nina Simone dentro do umbigo e segui caminho.
Jurei, por essa altura, nunca mais me apaixonar por um melómano. E vieram os politólogos, os cientistas, os físicos teóricos, os jardineiros, os polícias, os professores chatos com aspirações sinceras a catedráticos e nunca nenhum me lixou a vida. Também nunca nenhum me tirou o sono, o que a ver pela quantidade de soporíferos que a população portuguesa toma, deve ser uma coisa boa.
Admito que às vezes tenho recaídas. Tenho já há alguns tempos um novo amor melómano, mas tenho-me mantido à distância e já não falo com ele há mais de um mês. Houve tempos em que andei a morrer de amor por ele e por todas as músicas que me atirava nas cartas, em género de citação, mas lavei tudo com clorhexidina e fiz um penso compressivo ao coração e agora, quando chego à noite e ponho a playlist dele a tocar enquanto cozinho e bebo o meu copo de vinho, sorriu para o canto do frigorífico de onde vem a música e digo-lhe "a esta distância estou segura!"
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