sexta-feira, abril 24

o creme que me ofereceste para ficar com as mãos macias, uso-o para os pés.

é o quanto as coisas mudam em tão pouco tempo. embalagem vintage my ass, que eu não uso pochette nem sou de andar a aplicar cremes na rua.
é como silêncio da casa, antes tão duro, que zumbia nos ouvidos, que doía no estômago, que fazia o Adolfo chorar à noite e que me mantinha em estado vigília, na esperança de ouvir uma chave na porta (sim, ficaste com a chave muito mais tempo do que devias), é hoje a mais doce das músicas.
chegar a casa e ouvir os carros na via rápida, a carripana arrastada na Central às 00.15 em ponto, o riso dos bêbados a sair dos bares e os cantares da Igreja Universal, 5 pisos abaixo, na delícia de ter a cama só para mim e poder esticar-me toda... como muda tudo! a delícia de poder sentir a casa só minha, pôr a minha música sobre o meu silêncio, cantar desafinada ou nem por isso sobre o meu silêncio, ouvir os meus amigos que todas as terças lá jantam ocuparem o meu silêncio, saber que o voltarei a ter só para mim, silêncio sobre paredes azul manhatan e verde fumo, silêncio com Jon Hopkins em pano de fundo, silêncio com cheiro a caril ou a pão acabado de cozer, silêncio com cigarro na varanda. Silêncio que é já só opção, a opção, o espaço de meditação, todo meu.

como tudo muda.

o creme que me ofereceste para as mãos, embalagem vintage, vaselina só mas a preço de ouro, uso-o nos pés e nos pés cheiro àquilo que um dia achaste que me deviam cheirar as mãos.

Sem comentários: