Escrevo para não borratar a pintura (eu que nunca pinto os olhos) não vão os raios de verde queimarem com o sal e ficar com os olhos cor de outono seco.
É uma forma de ser dura como os carvalhos que o meu pai corta, resistentes a tudo menos à espada. Tortos. Escrever é a forma de ser torta sem quebrar pela cintura - pôr palavras à frente umas das outras (às vezes atrás) como outros têm o hábito de fazer puzzles na mesa da sala, condenando o jantar à mesa da cozinha, matar as horas até ser hora de ir dormir e outro demónios entrarem em acção e eu esses já não combato.
Escrever é matar os demónios diurnos.
Se pudesse não escrevia. Vivia só, tranquila. Mas a minha cabeça fala muito. Sempre que estou sozinha (e quando estou acompanhada também, na verdade) ele fala com tudo e com todos. Não pode ver um cão sem se lhe dar um bom dia e todos a todos os gatos lhes inventa uma história. Se vê uma árvores logo lhe pergunta quem foi o último a encostar-lhe a testa e que segredo lhe gritou para dentro da casca e quando vê o mar... quando o meu cérebro vê o mar... nem eu sei o que acontece quando o meu cérebro vê o mar - são marinheiros e piratas e as algas e dias idilicos em areias branca e peixe-aranha que picam os pés às pessoas que fazem xixi junto à orla e às vezes pequenas sereias apaixonadas e mexilhões. Cartas cartas cartas para vivos e para mortos (ai avó Arminda!). E perguntas - porque é que ele não me liga? Porque não ligo eu? Qual é o sentido da vida? E onde? Ou quando? E preparações para estranhos e realmente improváveis eventos futuros, o meu discurso para os oscares - há que estar preparada!, a entrevista ao senhor que pergunta o que dizem os meus olhos - não gosto de raia nem de couves de bruxelas, gosto de gatos e de livros. E depois a memória... a minha memória é do tamanho de um elefante! Há gente que tem memória de elefante mas o cérebro de um elefante pesa 7 kilos e meio. Eu aguento com isso! Mas a minha memória é do tamanho de um elefante todo. Adulto. Macho. E está todo desarrumado! Meias por todo o lado, tudo pedaços de histórias - as unhas gigantes da senhoras das finanças que não permitiam clicar no 4 da calculadora e por isso não podia ajudar-me com os recibos verdes, o dia em que o Buda me entrou em casa e era uma traça, o dia em que quase me caíram os dedos dos pés porque achei que nightswimming era mais do que uma boa canção e a noite era calma, aquela vez que achei que o amor era concreto e palpável, os setters do infantário, a Jean a reclamar em inglês 'tttchair! I'll sit in my tttttchair! Not in my share!', a Filipa a lamber o gelado depois de um queda na praia de Afife com ar vitoriosa, o papagaio da praça da republica 'te gustaria un regalo? cucurru cucurru!' e nem vos vou começar com os amores e os desamores todos lá enfiados dentro do elefante aos trambolhões como se dentro da máquina de lavar roupa. É assim o meu cérebro. Todos os dias.
Se eu pudesse não escrevia coisa nenhuma. Dobrava as meias, estendia a roupa, lavava as janelas, via a série, esmerava nas unhas - comprava uma daquelas máquinhas de pôr as mãos lá dentro que era uma boa forma de não conseguir escrever sem borratar a pintura.
Ler é outra forma de calar as vozes e manter as mãos quietas, embora por vezes os escritores me contem coisas que precisam de resposta, à vezes porque falam aos meus demónios (ai criatura tão egocêntrica que eu sou, sempre no centro de tudo) outras vezes por me inventarem novas dores, angustias que nem sabia que tinha, mas mal as vejo espalmadas impressas nas folhas de papel logo as faço minhas. Para essas conversas com deus, tenho sempre (quando o raio do gato pequeno não o rouba) um lápis do ikea na mesinha de cabeceira. (Um aparte, acho que os lápis ikea são uma piada maldosa. O tamanho até está bem, que eu sou pequena de mãos mas a dureza... 9H é cruel para os meus livros e qualquer nota mais emotiva sai em em forma de rasgão e sim, na hora de tomar notas, toda eu sou emoção). Mas ler é bom. Escuta-se. Com atenção. O meu cérebro cala-se e fica mansinho, enrolado debaixo da manta, boca meio aberta, todo colado às linhas, cada página tic, outra página tac, outra página tic, outra página tac, tempo tranquilo, sem tropelias.
'Tu pensas muito', dizia ele por detrás dos óculos escuros. Quando era pequena e falava pelos cotovelos, falava tanto como agora penso, o meu pai dizia-me 'quando não tiveres nada para dizer, diz pois'. Eu ficava triste e calava-me. Tudo aquilo que eu dizia, para mim, era importante. Eram coisas tão desimportantes como as conversas que tenho hoje dentro da minha cabeça. Aprendi a calar as cordas, agora incomodo cada vez menos (excepto nos fim de semana em que vou a casa dos meus pais e ai posso deixar a voz jorrar cá para fora que entre os meus já não me doi o 'Helena, diz pois!'). Mas quando digo ao meu cérebro 'diz pois' ele olha-me em silêncio durante 4 milésimos de segundo (o tempo que demora a olhar de dentro para fora) e volta logo à lenga-lenga e se discutíssemos hoje e agora o sexo dos anjos e o moço que bem vestido comprou um pack de cervejas de marca branca em pleno euro 2012 em dia de quartos de final? Sim, eu penso demais.
Eu estou cansada de tanta conversa dentro da cabeça - estas discussões entre mim e myself em que nem eu nem a outra (nem anjos nem diabos) chegamos a qualquer acordo. Ninguém cede, ninguém está certo, ninguém desiste e não há negociação nenhuma. Estas histórias que sou obrigada a escrever para poder arrumar os assuntos, criar pontos finais nas conversas por já não caberem mais palavras no meio dos textos, fazer letra pequena e ocupar as margens para não caberem adendas, pesam-me os dias.
Esta semana voltei aos comprimidos. Com os comprimidos não há histórias, não há paixões, não há copos de vinho e cigarros na janela da cozinha, não há livros rasgados. É tudo ameno. Sensato. Calmo. E nesta primavera triste sem finais de dia ao sol, paz é o que eu preciso.
quarta-feira, maio 8
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