trago a preguiça toda no bolso de trás, a preguiça dos meus gatos, que agora são dois e já não preguiçam, que a arrumam dentro da mesinha de cabeceira logo de manhã, depois de lá arranjar espaço escolhendo-me vários pares de cuecas e meias que abandonam pelo chão do quarto. e não, não é a morrinha de outono que eu ainda estou no verão.
(por ainda estar no verão, ninguém me avisou, ninguém me avisa!, tenho roupa no estendal há já duas semanas e por algum mistério que não consigo deslindar continua tão molhada como no dia em que a pendurei. de qualquer da formas, este ano a temporada do patos vai ter de ser adiada. O Chico só chega cá no final deste outubro estival e toda a gente sabe que no Brasil é sempre verão. toda a gente sabe que o Chico é verão e viagens de carro país abaixo rumo ao sol. em novembro também não vai dar porque só os tolos é que vão para Budapeste no pino do outono, com frio e chuva e vento e eu nem tenho botas para aguentar esse tempo e tenho mesmo que lá ir que a mais pequena está para lá a estudar com o senhor erasmus morta de saudades de um mimo, nem que seja da mais do meio).
é mais uma preguiça manhosa, que me tenta todas as manhãs a ligar para a clínica com os dedos no nariz e nasalar uma insolação ou uma dor barriga insuportável (até me lembrar que os recibos verdes não têm baixa médica). é a vontade de ter um arroz de pato da minha mãe no congelador em vez de ter de inventar como é que se faz esparregado com aqueles espinafres que lá estão. é só este conforto-sandália de poder baixar os braços e saber que amanhã vai estar tudo na mesma, que ninguém arrumou, ninguém desarrumou o biquini do saco e que o martini vai ser de qualquer das formas servido às 8. é só esta ânsia de parar e encostar a cadeira para trás e ouvir a deliciosa chuva de verão
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