Hoje despeço-me da Caxina (como diz a rapariga que dá uma mão cá no sítio).
Caxinas que não vem no dicionário nem no wikipédia que sabe tudo. Caxinas que é um enclave de pescadores e marinheiros e viúvas e onde todas as pessoas são velhas e se vestem de velhas vestidas de preto. Onde as crianças ainda brincam na rua e dizem palavrões alto e bom som com a inocência de quem não está a dizer nada de mal.
Caxinas mesmo ao lado da Póvoa onde eu passei alguns verões com a avó e onde tinhamos uma barraca na praia de lona azul e branco onde guardavamos um saco enorme de conchas e pás e baldes para brincar na areia e onde fui ao cinema ao ar livre pela primeira vez. Caxinas que não tem nada a ver com a Póvoa ou com Vila do Conde e que tem limites bem definidos que não são ruas nem placas mas o baço do olhares e o queimado das peles (em contraste com os bronzeados das peles dos vizinhos).
Caxinas do senhor João a quem não tenho de dizer nada para me trazer o café cheio, a tratar-me por tu sem maldade. A dona Conceição sempre doce, sempre rouca que até já foi ao médico da privada que disse que tinha que fazer uma laringoscopia mas que era caro e por isso continua agarrada aos rebuçados Dr Bayard. A Ana que não gosta de ajudar no café mas que não tem outra hipótese porque nasceu por cá e só tem descanso na hora dos morangos com açucar.
Caxinas dos pescadores sentados o dia inteiro na marginal arranjada à moda da Póvoa com os olhos mergulhados no mar, com as mãos embrulhadas uma na outra, preparados para aguentar o dia inteiro, só dispostos a voltar para casa depois do sol posto, só depois do dia de trabalho que não há. Vestidos de preto de luto pela vida que já lhes morreu. Saudosos dos dias no mar e na esperança que o olhar os leve outra vez para a faina porque não sabem outra coisa. Não sabem viver em terra.
Caxinas dos meus clientes. Todos doces e educados. Todos atenciosos. Os que ainda antes de entrar pedem desculpa por cheirarem a peixe e a suor, com olhar triste por ter de ser assim. O Carlitos, que tem 12 anos e tem o pai sempre embarcado, e que é muito bom aluno e que gosta de dizer palavras dificeis e que ajuda a mãe na lota e que quando for grande e acabar a escola também quer ser pescador. As famílias de mulheres que vêem aos magotes 5 numa confusão total e que pedem para pesar na balança da entrada com risos de miúdas de 60 anos. A rapariga que me dá uma mão e que se pudesse tirava o curso de hotelaria porque o que gosta mesmo é de servir à mesa, ela que até serviu no Meridien do Porto, mas que agora não dá que este dinheiro pouco faz-lhe falta.
A esta Caxina a que se algum dia voltar será por eles, enclave maldito.
A rapariga que me dá uma mão cá no sítio diz-me que a melhor maneira de sair de Caxinas é cortar sempre à direita. e que não me esqueça dela
2 comentários:
já me dói.
não sou de partir
Decisão acertada a tua, de parir um blog.
Continua. Vou passar por estes lados amiúde.
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