o pior das separações é quebrar os hábitos. são os jantares que já não
se fazem. os domingos em que ninguém nos espera no sofá. o chegar a casa
ganha uma dimensão diferente. o desabafo de final do dia - aquele que
tirava o dia de trabalho de cima dos ombros, aquelas pequenas coisas que
aconteceram durante o dia e que só vale a pena contar a quem tem um
cordão umbilical connosco, e que agora já não se contam, até os
segredos, os flirts inofensivos que não se contavam mas que tinham um
espaço dentro da relação e que agora são só mais uma memória inutil. a
felicidade e a tristeza não são nada se não forem partilhados, ou
melhor, são, mas são coisas diferentes. os segredos não existem se não
tivermos de os esconder de ninguém, mesmo que não os contemos a ninguém,
deixam de ser segredos. para haver segredos são precisas 2 pessoas. um
segredo meu para todo o mundo não é um segredo, não causa borborinho na
barriga. é só mais uma coisa minha, como um rim. cantar no banho que
antes era um chamamento da sereia e que agora é só mais um desgaste das
cordas vocais. os primeiros morangos a nascer na varanda que já não são
guardados para uma manhã de sol com pequeno-almoço na sala. mas depois
penso que lhe ofereci o primeiro maracujá e que não o comemos juntos porque
ele estava muito ocupado a fotografá-lo para partilhar com outros e estas tristezas tornam-se mais pequenas.
hoje, quando chegar a casa, à minha casa, sentar-me-ei com o gato e vamos comer morangos.
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