terça-feira, maio 20

os primeiros morangos da varanda

o pior das separações é quebrar os hábitos. são os jantares que já não se fazem. os domingos em que ninguém nos espera no sofá. o chegar a casa ganha uma dimensão diferente. o desabafo de final do dia - aquele que tirava o dia de trabalho de cima dos ombros, aquelas pequenas coisas que aconteceram durante o dia e que só vale a pena contar a quem tem um cordão umbilical connosco, e que agora já não se contam, até os segredos, os flirts inofensivos que não se contavam mas que tinham um espaço dentro da relação e que agora são só mais uma memória inutil. a felicidade e a tristeza não são nada se não forem partilhados, ou melhor, são, mas são coisas diferentes. os segredos não existem se não tivermos de os esconder de ninguém, mesmo que não os contemos a ninguém, deixam de ser segredos. para haver segredos são precisas 2 pessoas. um segredo meu para todo o mundo não é um segredo, não causa borborinho na barriga. é só mais uma coisa minha, como um rim. cantar no banho que antes era um chamamento da sereia e que agora é só mais um desgaste das cordas vocais. os primeiros morangos a nascer na varanda que já não são guardados para uma manhã de sol com pequeno-almoço na sala. mas depois penso que lhe ofereci o primeiro maracujá e que não o comemos juntos porque ele estava muito ocupado a fotografá-lo para partilhar com outros e estas tristezas tornam-se mais pequenas.



hoje, quando chegar a casa, à minha casa, sentar-me-ei com o gato e vamos comer morangos.

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