segunda-feira, março 3

A tristeza é tão grande.

E já não é por teres saído, não é por teres desalinhado a minha vida, não é por já não discutirmos o nome dos nossos filhos e quantas horas de televisão vão poder ver, já não é por não ter os teus abraços, ou por não poder mais enrolar os meus dedos nos teus caracóis.

Não é por teres decidido sozinho que já não temos um futuro juntos. Não é por teres desistido de nós, como na verdade desistes de tudo o que dá um pouco de trabalho, como desististe de cursos e projectos e planos e amigos e sonhos.

É só por teres achado que a nossa relação podia acabar assim - chegares um dia a casa e dizeres vou embora. Como quem não deve nada a ninguém. É este egoísmo profundo - my life is my life - é um dia eu ser a maior e tu adorares-me, e amares-me e chamares à nossa cama, no frio do inverno, enroscado em mim, o nossoninho enquanto faziamos planos para o futuro, enquanto desenhavamos sonhos nas costas um do outro, enquanto faziamos amor e dormias com o teu nariz colado ao meu pescoço, é termos durante 12 anos desenhado toda a nossa vida e tu achares, que podes, que tens o direito, porque a tua vida é a tua vida, de dizer acabou, vou embora, já não é isto que quero. Estive a brincar contigo às casinhas durante 12 anos e agora quero ir para a rua brincar aos cowboys.

És um egoísta. Mentiste o mais que pudeste, aguentaste em silêncio dúvidas enquanto me vendias falsos sonhos de família. És um falso e és um rato. Não és um homem. Puseste a cauda entre as pernas e fugiste como se isso fosse um direito. Não é. Não era um direito teu. Não tinhas o direito de me fazeres acreditar que eramos uma família, que estavamos bem, que eramos felizes, que íamos ter filhos e visitar os Açores para ver as baleias e no dia seguinte, depois de 12 anos de fazer planos, de crescermos juntos, de desenharmos um futuro todos os dias, dizeres que vou embora, que levo as minhas coisas e que podemos ficar amigos.

És um rato!


Tentei, durante este terrível mês de Fevereiro, entender o teu ponto de vista, entender que és infantil, que tens sindrome de Peter Pan, desculpar-te com uma crise da meia-idade antecipada, inventar razões para já não quereres a vida que desenhamos os 2 juntos durante tanto tempo, perceber que se calhar não te imaginas com filhos, inventar-te uma angustia tremenda, uma depressão crónica que te paraliza todos os dias, que te impede de avançar com a tua vida, imaginar-te numa crise de ansiedade tremenda, com gritos por dentro a atormentar-te violentamente, mas nada disto é verdade.

És um egoísta. Nunca me amaste. Nunca. Porque tu não sabes amar. Conheces a paixão e amas a paixão, mas não sabes o que é o amor. Não sabes que amar é dar, é cuidar. Amor egoísta não é amor. Enganaste-me e mentiste-me anos a fio. Se calhar também mentiste a ti próprio. Se calhar também disseste ao teu coração que me amavas, mas isso não me interessa para nada. O que interessa é que não me deixaste no altar no dia do casamento, mas deixaste-me à porta da obstetra onde íamos planear o nosso filho, 24 horas depois de me dizeres que estavas ao meu lado.

Nunca te obriguei a nada. Nunca. Sempre discuti contigo todos os aspectos da nossa vida e só avancei quando te tinha ao meu lado. E tu nunca me disseste que não querias filhos, que não querias continuar esta vida, que querias coisas diferentes das que nós tinhamos. Até ao último minuto mentiste-me, fizeste-me acreditar, com palavras, com mimos, com abraços, com sussurros, com planos e festas, que eramos uma família.

Saíste sem me dizer porquê. Acabaste a nossa relação como quem acaba um namoro de 1 mês aos 15 anos.

És um rato.

E agora ajes como se nada fosse. Como se não me tivesses falhado em nada, como se tivessses sido um namorado exemplar, como se o amor tivesse acabado e fosse a hora de seguir em frente. Como se não me devesses nenhuma explicação. Como se eu não tivesse o direito de saber o que se passou na tua cabeça, como se eu não tivesse o direito de dizer-te isto na cara, como se eu não tivesse o direito de reclamar as tuas promessas. Vais beber copos, crias novos projectos, deixas-me a casa para eu pagar e os planos a dois espalhados pela casa, impressos nas paredes e levas tudo o que é teu como se o nós nunca tivesse existido.

És um rato!

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