quinta-feira, fevereiro 20

Luto

é sempre mais fácil sair. começar de novo, respirar ar fresco, ser confrontado com uma nova vida, é preciso arranjar casa e mobilar e criar novas rotinas - ocupar a cabeça com todos os novos desafios.

ficar é sempre pior. a mesma casa, os nossos móveis, as conversas que ali tivemos, os momentos que ali vivemos, a tua cara em todas as esquinas, nos espelhos, as tuas coisas no mesmo sítio. o luto que não se pode evitar a toda a hora. o luto que tem de ser feito porque não há avançar sem luto mas que eu gostaria de arrumar para canto um bocadinho, como tu fazes, esquecer a nossa dor, a minha dor, o teu sorriso escrito em todos os cantos, esquecer os abraços que ainda vivem no nosso sofá, não ver a tua cabeça a pedir cafoné no meu colo, poder esquecer-te, poder esquecer estes 12 anos. Nem que fosse por um instante poder dormir numa cama onde nunca fui feliz contigo.




ó pedaço de mim, ó metade arrancada de mim, leva o vulto teu que a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu e por isso eu pinto paredes, desarrumo tudo, respiro fundo e fumo cigarros, faço planos, desenho, escrevo mas o luto cola-se-me às costas, vive-me no colo. e dói-me que não te encontre - dói-me que possas não fazer luto, invejo-te e odeio-te por não o fazeres.

leva o que há de ti que a saudade dói latejada, é assim como uma fisgada num membro que já perdi
ó pedaço de mim, ó metade adorada de mim, lava os olhos meus que a saudade é pior castigo e eu não quero levar comigo a mortalha do amor,
adeus

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